Quinta-feira, 13 de Setembro de 2012

Ela canta, pobre ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,

Julgando-se feliz talvez;

Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia

De alegre e anónima viuvez,

 

Ondula como um canto de ave

No ar limpo como um limiar,

E há curvas no enredo suave

Do som que ela tem a cantar.

 

Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há o campo e a lida,

E canta como se tivesse

Mais razões pra cantar que a vida.

 

Ah, canta, canta sem razão!

O que em mim sente ‘stá pensando.

Derrama no meu coração

a tua incerta voz ondeando!

 

Ah, poder ser tu, sendo eu!

Ter a tua alegre inconsciência,

E a consciência disso!

Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência

 

Pesa tanto e a vida é tão breve!

Entrai por mim dentro!

Tornai Minha alma a vossa sombra leve!

Depois, levando-me, passai!

 

 

Orientações de leitura:

 

1. A ceifeira é uma mulher trabalhadora, sacrificada, de condição social baixa, viúva e com uma voz bonita.

 

2. Verso 9, "Ouvi-la alegra e entristece": Paradoxo. O eu poético sente alegria por constatar que a ceifeira, apesar de ter motivos para ser uma pessoa triste, revela no seu canto um contentamento de quem aceita a vida com o que esta tem de bom e de mau. Todavia, o sujeito poético experimenta, simultaneamente, tristeza por se aperceber de que a ceifeira não tem verdadeira consciência das suas precárias condições de vida, pois, se tivesse, não cantaria exprimindo-se tão alegremente.

 

3. A dor do eu poético é causada pelo seu intelecto, porquanto ele intelectualiza as suas emoções. Na análise profunda e lúcida que faz não entende como a ceifeira pode exprimir-se com tamanha alegria.

 

4. O eu lírico gostaria de não sentir a dor derivada da sua lucidez e intelectualização das emoções, logo, se fosse a ceifeira não sentiria o sofrimento causado pela intelectualização do sentir.

 

5. Versos 18-21, "Ter a tua alegre inconsciência, / E a consciência disso!": O sujeito poético desejava ser inconsciente e feliz como a ceifeira, libertando-se, assim, da dor causada pelo processo da intelectualização das emoções; "[...] A ciência / Pesa tanto e a vida é tão breve!": o eu poético reconhece que o conhecimento gera sofrimento existencial que aparece como inútil perante a efemeridade da vida.

 

 

publicado por novosnavegantes às 18:20
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