Domingo, 22 de Abril de 2007

"Mensagem" e "Lusíadas"

Acrescento no blog alguns aspectos que considero significativos para o estudo comparativo destas duas grandes obras da Literatura Portuguesa - "Mensagem" de Fernando Pessoa e "Lusíadas" de Luís de Camões.

 

 

A comparação entre "Os Lusíadas" e a "Mensagem" impõe-se pelo próprio facto de esta ser, a alguns séculos de distância e num tempo de decadência – o novo mito da pátria portuguesa.

 

 

 

 

 

Os Lusíadas

 

 

A Mensagem

ü      Homens reais com dimensões heróicas mas verosímeis;

 

ü      Heróis de carne e osso, bravos mas nunca infalíveis;

ü    Heróis mitificados, desincarnados, carregando dimensões simbólicas

 

v     Brasão ® Terra ® Nun’Álvares Pereira

v     Mar Português ® Mar ® Infante D. Henrique

v     O encoberto ® Ar ® D. Sebastião


(de uma terra de dimensões conhecidas parte-se à descoberta do mar e constrói-se um império. Depois o império se desfez e o sonhos e o Encoberto são a raiz a esperança de um Quinto Império)

ü      Herói colectivo: o povo português

ü      Virtudes e manhas


ü      Heróis individuais exemplares (símbolos)

 

ü      D. Sebastião (rei menino) a quem Os Lusíadas são dedicados; “tenro e novo ramo”      


ü      D. Sebastião mito “loucura sadia”

Sonho, ambição

(repare-se que d. Sebastião é a última figura da história a ser mencionada, como se se quisesse dizer que Portugal mergulhou, depois do seu desaparecimento num longo período de letargia)

 

ü            Celebração do passado – história

ü            Glorificação do futuro – símbolos

ü            Messianismo a mola real de Portugal

ü             

ü            Narrativa comentada da história de Portugal (cf. Jorge Borges de Macedo)
Teoria da história de Portugal

ü            Metafísica do Ser português

ü            Três mitos basilares:

o        Adamastor

o        Velho do Restelo

o       A ilha dos amores

ü            Tudo é mito – “o mito é o nada que é tudo”

 

 

 

ü      Acção

ü                        Contemplação

ü                        Altiva rejeição do real

ü      Império feito e acabado

ü                        Portugal indefinido, a temporal

ü       

ü          Saudade profética ® saudades do futuro

ü      Façanhas dos barões assinalados

ü          Matéria dos sonhos

ü      Temporalidade

 

ü          A temporalidade mística

ü      Síntese de pagão e cristão

ü          Síntese total (sincretismo religioso)

ü      D. Sebastião como enviado de Deus para alargar a Cristandade

ü     Portugal como instrumento de Deus

(os heróis cumprem um destino que os ultrapassa)

ü      Cabeça da Europa

ü      Rosto da Europa que aguarda expectante o que virá

 

                        

Os Lusíadas

 

Viagem, aventura, risco (elementos viris)          

D. Sebastião físico

Império terreno

Evocação

Portugueses 

(um império que já não é)

 

 

 

A Mensagem

 

D. Sebastião mítico

Elemento onírico

O encoberto

O desejado

Império Espiritual

Invocação

Atitude Metafísica

Essência de Portugal

Abstracção

 

O projecto da Mensagem é o de superar o carácter obsessivo e nacional d’Os Lusíadas no imaginário mítico-poético nacional. Os Lusíadas conquistaram o título de “evangelho nacional” e foram elevados à categoria de símbolo nacional. A Mensagem logo no seu título aponta para um novo evangelho, num sentido místico, ideia de missão e de vocação universal. O próprio título indicia uma revelação, uma iniciação.

Pessoa previa para breve o aparecimento do “Supra-Camões” que anunciará o “Supra-Portugal de amanhã”, a “busca de uma Índia Nova”, o tal “porto sempre por achar”.
          A Mensagem entrelaça-se, através de um complexo processo intertextual, com Os Lusíadas, que por sua vez são já um reflexo intertextual da Eneida e da Odisseia. Estabelece-se portanto um diálogo que perpassa múltiplos tempos históricos. Pessoa transforma-se num arquitecto que edifica uma obra nova, com modernidade, mas também com a herança da memória.

  Em Camões memória e esperança estão no mesmo plano. Em Pessoa, o objecto da esperança transferiu-se para o sonho, daí a diferente concepção de heroísmo.

Pessoa identifica-se com os heróis da Mensagem ou neles se desdobra num processo lírico-dramático. O amor da pátria converte-se numa atitude metafísica, definível pela decepção do real, por uma loucura consciente. Revivendo a fé no Quinto Império, Pessoa reinventou um razão de ser, um destino para fugir a um quotidiano
absurdo.

           O assunto da Mensagem é a essência de Portugal e a sua missão por cumprir. Portugal é reduzido a um pensamento que descarna e espectraliza as personagens da história nacional.

          A Mensagem é o sonho de um império sem fronteiras nem ocaso. A viagem real é metamorfoseada na busca do “porto sempre por achar”.

 

 

“A Mensagem comparada com Os Lusíadas é um passo em frente. Enquanto Camões, em Os Lusíadas, conseguiu fazer a síntese entre o mundo pagão e o mundo cristão, Pessoa na Mensagem conseguiu ir mais longe estabelecendo uma harmonia total, perfeita, entre o mundo pagão, o mundo cristão e o mundo esotérico.” (Cirurgião: 1990,19)

 

“A Mensagem é algo mais, muito mais, que uma mera viagem temporal e espacial pela mitologia, pré-história e história de Portugal. É essencialmente uma viagem pelo mundo labiríntico dos mistérios e dos enigmas e dos símbolos e dos signos secretos, em demanda da verdade.”

Cirurgião, António, 1990 O olhar esfíngico da Mensagem de Fernando Pessoa

 INLC, Ministério da Educação

 

 

A Mensagem reparte-se em dois vectores:

 

ü      Busca ôntica – procura da essência da lusitanidade e definição da nossa idiossincrasia

ü      Inquirição – questionação do mesmo histórico a seguir e a fazer seguir como projecto nacional colectivo

 

Pessoa é um exemplo desta obsessão nacional – a espera de um Messias.
A história de Portugal não oferece problemas à elaboração de um mito nacional. Ela está cheia de elementos e contém já um grande mito, o sebastianismo. Pessoa distinguiu o seu sebastianismo, apelidando-o de racional. O regresso de D. Sebastião é associado ao aparecimento do Quinto Império. Pessoa abandona os Impérios materiais para elaborar impérios espirituais – Grécia, Roma, Cristandade, Europa pós-renascentista e, agora, Portugal. O Quinto Império já estava escrito nas trovas do Bandarra e nas quadras do Nostradamus. O nacionalismo tradicional é superado por um nacionalismo cosmopolita.

Pessoa, criador do fundo e da forma do mito, anuncia-se como um supra Camões. A realidade é activada pelo Mito (força catalizadora).

 

 

 

FIM

publicado por novosnavegantes às 20:59
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