Quinta-feira, 26 de Abril de 2007

"Nevoeiro"

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  • Aspectos temáticos fundamentais:

 

      * Caracterização pela negativa e pela indefinição do Portugal do presente;

      * Falta de identidade nacional;

      * Sentimento de incerteza e imprecisão;

      * Apelo messiânico para a construção de um futuro diferente.

 

  • Aspectos formais:

 

      * acumulação das construções negativas;

      * construções anafóricas;

      * aliterações;

      * discurso apelativo.

publicado por novosnavegantes às 23:59
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"Screvo meu livro à beira mágoa"

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  1. O poeta manifesta a tristeza, o descontentamento em presença de um mundo perturbado e confuso.

 

2. É preciso que alguém ponha termo a esta perturbação e a esta confusão.

 

3. Por isso o poeta interroga-se sobre o momento da chegada desse “Alguém” (“Quando é o Rei? Quando é a Hora?”).

 

Características Sebastianistas do poema:

 

         O poeta, dilacerado pela dor dos dias vácuos, encontra no Encoberto a única razão de viver, a única esperança de salvação;

 

          O poeta identifica o seu sonho como o sonho (esperança) do povo português;

 

          Há aqui a ideia do Quinto Império de que o poeta se julgava o arauto: o super-poeta do super-Portugal;

 

          Há a ideia da degradação nacional personalizada no poeta: “Meu coração não tem que ter…, meus dias vácuos…, De a quem morreu o falso Deus…, do mal que existo.”;

 

          Desta frustração presente do poeta (e de Portugal) surge a ideia do Salvador: “Só tu, Senhor, me dás viver…, Meus dias vácuos enche e doura…, Nova Terra e Novos Céus, um grande anseio, minha esperança amor…

 

          O Salvador e a sua vinda reveste-se de mistério, de algo transcendente: “Ele é Senhor, Rei, Cristo, Novos Céus, o Encoberto, o sopro incerto…

 

          Ele é do passado, pois vem lá dos confins do tempo (Sonho das eras português); é do presente, pois é o anseio que enche o coração do povo português, mas é sobretudo do futuro.

publicado por novosnavegantes às 23:55
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"O Quinto Império"

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  1. Oposições dominantes ao longo do poema:

                        calma                  felicidade                          carácter negativo

 

                          /vs.                       /vs.

 

                        sonho                  descontentamento                       carácter positivo

 

            Contradição entre a tristeza e a alegria e a profecia do que será o Quinto Império.

            A felicidade é uma situação de comodismo, de adaptação às normas da sociedade = para o homem vulgar.

            Por isso o poeta considera essa felicidade como tristeza.

 

  1. Característica essencial do homem: o descontentamento que o leva ao sonho, mola impulsionadora do progresso e do avançar constante.
  2. Sonho = Verdade.
  3. Quatro impérios civilizacionais: Grécia, Roma, Cristandade, Europa.

5. Apelo para a construção do Quinto Império (que sucederá aos outros quatro);

 

6. Reformulação do Sebastianismo: O Sebastianismo pessoano é aberto ao futuro, é regenerador, é aquele que transmite um desejo absoluto de contínua renovação.

publicado por novosnavegantes às 23:50
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"D. Sebastião, Rei de Portugal"

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    Fala na 1ª pessoa, do seu sonho de grandeza e assume-se orgulhosamente como louco, capaz de partir e de se deixar morrer por uma ideia de grandeza no areal de Alcácer Quibir (vv. 4/5).

     (v.5) – Nesse areal ficou apenas o que nele havia de mortal:

                  «Ficou meu ser que houve, não o que há».

     O que sobreviveu é o mais importante: - o ser que há, que permanece, que é imortal: - o sonho / loucura «de querer grandeza / qual a sorte a não dá» (vv. ½).

 

     Diz este rei louco na 2ª estrofe:

                  O que é necessário é que outros venham pegar no seu sonho (divina loucura) e o retomem, porque «sem a loucura que é o homem mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?» (vv. 8-10).

 

     Este final – define a loucura, o sonho como o que distingue o homem da «besta sadia, cadáver adiado que procria» e dá o tom último à Mensagem pessoana:

 

                  O louvor da loucura que distingue o homem do animal e o faz ir em frente, haja o que houver na busca da realização do sonho.

 

    Perante o poder mobilizador do sonho / loucura, a morte não passa de contingência física.

 

 

     Tal divina loucura é fonte de energia que leva o homem a ser mais do que é na sua contingência física, feita de fraqueza e a morte é muito pouco e não é o que pode impedir que o sonho prossiga noutras mãos.

 

 

     E a História resultará da vontade de Deus e do sonho do Homem.

publicado por novosnavegantes às 23:47
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"Ulisses"

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*      Segundo a lenda, após a vitória de Tróia e quando regressava a Ítaca, Ulisses perdeu-se no Mediterrâneo e durante essa viagem atribulada teria chegado até ao estuário do Tejo e fundado Lisboa. Assim, e porque Lisboa significa aqui metonimicamente Portugal, esta referência a Ulisses, figura mítica vinda do mar, simbolizaria o destino marítimo dos Portugueses.

 

*      Paradoxo do 1º verso: «O mito é nada que é tudo»:

 

                  «O mito é nada» porque é uma explicação fantasiosa do real, no entanto, porque explica esse mesmo real, acaba por se tornar, também ele, concreto.

 

                    O mito cria as condições necessárias para que se possa dar concretização a uma ideia.

 

*      Valor e possibilidades criadoras do mito presente na 2ª estrofe:

                  Bastou para que Lisboa tivesse o nome que tem;

                    Bastou para que o povo Português se pudesse sentir projectado para a grandeza que tem e poderá ter;

                    Foi o primeiro impulso dado a um povo que edificaria um império cuja cabeça seria Lisboa.

 

*      Valorização constante do mito:

                    Elevado pelo sujeito poético a um estatuto criador e divino («Assim a lenda escorre/ A entrar na realidade,/ E a fecundá-la decorre»).

                    A lenda, embora uma força obscura, penetra a realidade presente, infiltra-se como sinal divino na vida que fica reduzida a menos que nada e o seu destino é fatalmente a morte.

 

*      Estrutura interna: três partes:

 

                    1ª Parte: 1ª estrofe – o alcance do mito;

                    2ª Parte: 2ª estrofe – Ulisses enquanto mito;

                    3ª Parte: 3ª estrofe – o mito é imprescindível.

 

Aspectos morfo-sintácticos e semânticos

 

*      Oxímoro: «O mito é o nada que é tudo».

                        «Foi por não ser existindo. / Sem existir nos bastou. / Por não ter vindo foi vindo…»

                             Exprimem o carácter contraditório do mito.

 

*      Metáforas-Imagens: «O mesmo sol… É um mito brilhante e mudo…»;

                                   «O corpo morto de Deus vivo e desnudo».

 

                  MITO = sol brilhante que nos abre os céus e como um Deus que, parecendo morto, se revela às vezes aos homens como vivo.

 

*      Formas verbais: «Escorre» (v. 11) / «Decorre» (v. 13) = traduzem a acção duradoira e persistente do mito – aspecto durativo.

 

*      Alternância dos tempos verbais:

                             1ª Estrofe: Presente – porque se trata de uma definição;

 

                             2ª Estrofe: Perfeito – narração do nosso passado;

 

                             3ª Estrofe: Presente – porque se trata de uma conclusão: a lenda é essencial aos feitos dos grandes povos.

 

*      Formas perifrásticas: «foi existindo» (v. 7) e «foi vindo» (v. 9)

 

                             Caracterizam o processo gradual da criação dos mitos e da sua acção.

 

*      Expressão adverbial: «Em baixo» (v. 14)

                                        

                             Estabelece uma contraposição com o que o poeta afirma atrás a respeito da dinâmica do mito: «O mito abre os céus, é um deus vivo», isto é, vem do alto.

                             Mas a expressão «Em baixo» refere-se à vida desligada do mito, que, sendo «menos que nada» morre.

publicado por novosnavegantes às 23:42
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"O dos Castelos" - ideias fundamentais

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*      A simbologia do Castelo prende-se com a da casa, refúgio onde se realizam os desejos humanos. Pela protecção que oferecem e por se situarem num local elevado, são um espaço de intimidade e de espiritualidade. Ligam-se, por isso, à transcendência.

 

 

*      Nesta obra, o Castelo remete, igualmente, para a própria fundação da nacionalidade.

 

*      Características da Europa:

                             Figura feminina que se apresenta numa posição estática: «(…) jaz, fitando»;

                               Importância dos olhos na globalidade do retrato, uma vez que o olhar é esfíngico (vazio) e fatal; tem um poder mágico, misterioso;

                               Encerra mistério e destino, procura e sentido de missão, dirigido para um passado que é promessa de futuro;

                               O rosto a que esse olhar pertence é Portugal, capaz de ombrear com os povos criadores de impérios ou mesmo de os superar com a chegada do Quinto Império.

 

*      Simbolismo da Europa:

                               Um Continente que já desvendou, no passado, o futuro («O Ocidente, futuro do passado»), assume agora uma atitude expectante e contemplativa;

                               O destino da Europa passa inexoravelmente pelo de Portugal.

 

*      Papel que cabe a Portugal:

                               Guiar a Europa e o Mundo até a um Império espiritual liderado por um «Super-Portugal». Este aspecto constitui a essência do nacionalismo profético que percorre toda a Mensagem.

publicado por novosnavegantes às 23:33
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D. Sebastião e a Nação Portguesa

Aqui publico um texto de reflexão acerca de D. Sebastião elaborado pela Catarina Brás, no ano lectivo de 2006/2007, e que apresenta uma visão muito pessoal, mas bem fundamentada deste rei português. Eu, pessoalmente, gostei muito deste trabalho.

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Planificação:

 

 

Introdução:

 

ü     Perfil de D. Sebastião;

ü     A sua importância na sociedade Portuguesa;

 

Desenvolvimento:

 

ü     Contexto histórico aquando do nascimento de D. Sebastião;

ü     Realçar o facto de ser o mais novo Rei de Portugal a desvendar territórios desconhecidos;

ü     Os devaneios de D. Sebastião;

ü     A batalha derradeira, a batalha de Alcácer Quibir;

ü     As consequências desastrosas da sua morte;

ü     O aparecimento do Mito Sebastianista e a sua importância para o povo e consequentemente para Portugal;

ü     A literatura e a sua inspiração na figura de D. Sebastião / perpetuação do mito sebastianista.

 

Conclusão:

 

ü     D. Sebastião como um herói lendário e a sua extrema importância no cumprimento dos sonhos de Portugal.

 

Textualização:

         D. Sebastião foi o rei mais novo de Portugal. A sua bravura, valentia e coragem estão espelhadas no seu retrato.

         D. Sebastião, neto de D. João III, nasceu em Lisboa em 20 de Janeiro de 1554.

         Quando nasceu, Portugal encontrava-se sob o reinado de D. João III que já não ambicionava alargar o império luso preocupando-se somente com a ocupação de territórios já descobertos. Alguns escritores consideravam que esta atitude era “irreflectida” porque o povo português ambicionava a conquista de novos territórios e era importante alargar Portugal.

         Com a morte de D. João III, D. Sebastião, com três anos de idade, foi considerado Rei de Portugal; no entanto, só tomou posse do trono quando tinha 14 anos.

         Entretanto, mesmo junto às nossas fronteiras, crescia o sonho dos espanhóis de unir os reinos ibéricos.

         Como D. Sebastião era ainda muito novo e não possuía herdeiros, a vizinha Espanha acreditava e “suplicava” pela unificação dos reinos e sentia essa prioridade cada vez mais próxima.

         O valente Rei, ainda que muito jovem, lançava as suas “garras” na conquista das terras africanas, o que acabaria por ser fatal para a sua vida e para o território nacional.

         Assim, aventurou-se pelos territórios Africanos e partiu para a derradeira batalha. Do outro lado, Filipe II de Espanha reunia todos os seus esforços e ele próprio foi lutar pelo sucesso da empresa marroquina.

 

D. Sebastião era diferente. Tinha os seus devaneios e gostos pessoais. Dedicava-se às caçadas, aos exércitos religiosos, interessava-se pela leitura de livros de História principalmente pela História Portuguesa. O seu grande prazer era desafiar o perigo e fugia constantemente ao amor porque considerava este sentimento estúpido relativamente aos seus hábitos guerreiros.

Com todas estas características que compunham o seu perfil seguiu a 4 de Agosto de 1578 para a batalha de Alcácer Quibir. Sabendo que era inferior ao adversário, D. Sebastião lutou pela Pátria, estando consciente de que se morresse causaria um grande distúrbio na sucessão ao trono.

Este malogrado Rei desapareceu na batalha e as consequências da sua morte foram desastrosas para o reino português. “Senhor da sua vontade, não encontrou quem soubesse evitar a sua ida a Marrocos em 1578. A sua valentia física e a preparação militar pessoal não lhe deram qualidades de comando em campo, de que precisava. Por isso ficou na jornada de África”.

Como não deixou nenhum descendente luso, o reinado ficou finalmente nas mãos de Castela, sob o domínio dos Filipes.

A disputa pela sucessão tornou-se problemática porque se a união dos reinos interessava às classes privilegiadas, pelo contrário, essa união era totalmente rejeitada pelo povo porque tinha a tendência de colocar de lado tudo aquilo que era castelhano.

Portugal perdeu a independência e, com esta revolta, formou-se em torno do nome de D. Sebastião uma lenda em que o povo acreditava que este desejado rei iria voltar numa manhã de nevoeiro.

Criou-se, assim, o mito Sebastianista e ainda hoje nos apercebemos, nos momentos de crise, que o povo acredita que algo ou alguém irá surgir para resolver as suas angústias, o seu sofrimento e a sua falta de esperança.

Muitos escritores consideram que existe uma lógica no mito e como tal o Sebastianismo responde a esta lógica.

Os mitos “são temas que deram sustentação à vida humana, construíram civilizações e enformaram religiões, profundos mistérios, profundos limiares de travessia”.

Este mito serviu de inspiração à literatura de tal forma que se afirma que a “Literatura chorou com a perda de D. Sebastião”.

Encontramos na literatura vários poemas que retratam D. Sebastião. Assim, n’ Os Lusíadas, na “Dedicatória”, Camões atribui-lhe um valor divino, considerando-o “Maravilha fatal da nossa idade”.

Na Mensagem de Fernando Pessoa aparece a figura deste jovem Rei, qual semente do futuro, na qual assenta o sonho visionário do “Quinto Império” semeado de heróis.

Os poemas Pessoanos revelam que o homem deve ser louco para conseguir o que deseja, deve ter um sonho e lutar por ele de forma ambiciosa, caso contrário nada mais será do que “… a besta sadia, Cadáver adiado que procria”, porque, para Pessoa, a loucura é exactamente aquilo que dá ao homem a razão de existir.

Em suma, podemos considerar que a figura deste Rei constitui um autêntico estandarte da Portugalidade. D. Sebastião foi e será um herói lendário da nossa Nação, é nele que se encontra a aura de bravura, a esperança, a loucura e é nele que prevalece intemporalmente a força para continuar a desvendar o futuro.

        

Ana Catarina Brás

Fevereiro de 2006

publicado por novosnavegantes às 22:45
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"Felizmente Há Luar!":Classificação e Características da Obra

Trata-se de uma drama narrativo de carácter épico que retrata a trágica apoteose do movimento liberal oitocentista, em Portugal. Apresenta as condições da sociedade portuguesa do séc. XIX e a revolta dos mais esclarecidos, muitas vezes organizados em sociedades secretas. Segue a linha de Brecht e mostra o mundo e o homem em constante transformação; mostra a preocupação com o homem e o seu destino, a luta contra a miséria e a alienação e a denúncia da ausência de moral; alerta para a necessidade de uma sociedade solidária que permita a verdadeira realização do homem.

De acordo com Brecht, Sttau Monteiro proporciona uma análise crítica da sociedade, mostrando a realidade, do modo a levar os espectadores a reagir criticamente e a tomar uma posição.

CARACTERÍSTICAS DA OBRA

 

- Personagens psicologicamente densas e vivas

- Comentários irónicos e mordazes

- Denúncia da hipocrisia da sociedade

- Defesa intransigente da justiça social

- Teatro épico: oferece-nos uma análise crítica da sociedade, procurando mostrar a realidade em vez de a representar, para levar o espectador a reagir criticamente e a tomar uma posição

- Intemporalidade da peça remete-nos para a luta do ser humano contra a tirania, a opressão, a traição, a injustiça e todas as formas de perseguição

- Preocupação com o homem e o seu destino

- Luta contra a miséria e a alienação

- Denúncia a ausência de moral

- Alerta para a necessidade de uma superação com o surgimento de uma sociedade solidária que permitia a verdadeira realização do homem.

As personagens são psicologicamente densas, os comentários irónicos e mordazes e denuncia-se a hipocrisia da sociedade, a luta contra a miséria e a alienação, a preocupação com o Homem e o seu destino. Drama narrativo, de carácter social, na linha de Brecht (exprime a revolta contra o poder, o homem tem o direito e o dever de transformar a sociedade em que vive, com o objectivo de levar o espectador a reagir criticamente).

 

publicado por novosnavegantes às 00:37
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"Felizmente Há Luar!":Trágica Apoteose da História

l      A designação “apoteose trágica” é uma expressão utilizada por Sttau Monteiro para se referir ao tom da sua obra.

 

l      Pretende com isso colocar em destaque o desfecho trágico, mas ao mesmo tempo o tom apoteótico, quase de homenagem à figura heróica do general.

 

l      A apoteose trágica faz-se anunciar nas palavras finais de Matilde:

 

l      Felizmente há Luar! Surge como um apelo de esperança para que a luz suplante a noite.

 

l      A noite = opressão, falta de conhecimento, obscurantismo.

 

l      A luz = conhecimento, esclarecimento, liberdade de opinião e de expressão.

 

l      Contribui para o carácter apoteótico o próprio cenário em si:

 

  O grupo dos populares, as figuras do poder, a mulher e o amigo, a luz da Lua e da fogueira que criam um ambiente mágico e ao mesmo tempo espectral.

 

  O ambiente épico era também criado em cena pelo recurso a uma encenação baseada em cenários neutros e pouco aparatosos.

publicado por novosnavegantes às 00:36
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"Felizmente Há Luar!": A Influência do Teatro de Brecht

l      “Distanciação” do espectador.

 

l      Um episódio histórico.

 

l      Conduzir o espectador à reflexão sobre o presente partindo da figuração de um momento da história passada que com o presente mantém uma relação analógica.

 

l      O espectador deve assumir uma posição crítica que lhe permitirá intervir nesse mesmo mal.

publicado por novosnavegantes às 00:34
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Tempo da Acção de "Felizmente Há Luar!"

 

l      São escassos os dados referidos nas falas das personagens ou nas didascálias, mas podemos dizer que há um tempo concentrado.

 

O Acto I inicia-se com a alvorada (pág. 16 / 17);

 

Os acontecimentos precipitam-se até à prisão do General;

                       

  Acto II inicia-se na manhã do dia em que prenderam Gomes Freire;

 

Os quadros finais correspondem ao dia 18 de Outubro de 1817, dia em que o general foi executado.

 

A acção arrasta-se ao longo de 150 dias (concentrados em 4 dias – pág. 130).

publicado por novosnavegantes às 00:33
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O Tempo de "Felizmente Há Luar!"

O TEMPO

 

l      As referências textuais ao tempo não são muito minuciosas.

 

l      Há a considerar, no entanto,

 

l      O tempo histórico o contexto da revolta de 1817;

 

l      O tempo da escrita implícito na alegoria estabelecida com os anos 50/60 do nosso século.

 

l      Tempo histórico:

 

l      Aparece caracterizado nas palavras de Manuel, no início de cada acto;

l      Nas palavras de D. Miguel, Beresford, Principal Sousa, Vicente e Sousa Falcão com referências ao contexto que se vivia:

 

revolta de Pernambuco (1817);

invasões francesas;

presença dos ingleses, nossos aliados;

regime absolutista.

publicado por novosnavegantes às 00:31
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O Espaço de "Felizmente Há Luar!"

l      Espaço físico

            As didascálias e as falas das personagens facultam algumas referências ao espaço.

 

l      Acto I: ruas da cidade de Lisboa;

                        palácio dos governadores;

                        a casa do general para os lados do Rato;

                        o botequim do Marrare;

                        uma loja maçónica, na rua de S. Bento.

 

l      Acto II: ruas da cidade;

                         casa do general;

                         gabinete de Beresford;

                         casa de D. Miguel (entrada);

                         a serra de Sto. António;

                         o forte de S. Julião da Barra.

l      Trata-se de um espaço de contrastes que permite o confronto entre o poder e o povo, o que nos conduz ao espaço social.

l      O povo é caracterizado através de um vestuário reduzido que denuncia a sua miséria:

l      Manuel é apresentado andrajosamente vestido;

l      Dormem no chão ou em cima de sacos;

l      Sentam-se em caixotes;

l      Mendigam – são uma multidão de aleijados e doentes que não têm liberdade para andar nas ruas por causa da presença constante da polícia.

l      Não têm condições de higiene;

l      Catam piolhos;

l      Possuem cestos, mantas esfarrapadas, uma abóbora.

 

l      Os poderosos:

 

l      Apresentam um guarda-roupa cuidado de acordo com o seu estatuto social e rodeados por um cenário de riqueza.

 

l      O Principal Sousa surge imponentemente vestido de gala, sentado numa cadeira pesada e rica, com aparência de trono.

 

l      O espaço social é também caracterizado como um espaço de opressão e violência.

 

            Conclusão:

 

l      O facto de haver poucas referências directas ao espaço, leva a concluir que a acção da peça pode ocorrer em qualquer espaço, em qualquer lugar em que o ontem queira inviabilizar o amanhã.

publicado por novosnavegantes às 00:28
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A Importância das Didascálias

l      As didascálias funcionam quase como linhas de leitura que orientam a interpretação do público / leitor.

 

l      As didascálias apontam uma interpretação a seguir.

 

l      Porque são importantes as didascálias?

 

l      Porque nos fornecem informações:

 

l      Acerca  do espaço cénico;

l      Acerca do tom de voz das personagens;

l      Acerca dos gestos e movimentação dos actores;

l      Acerca da iluminação;

l      Acerca dos trajos, dos acessórios e dos adereços;

l      Acerca do som:

l      Indicam o nome da personagem antes de cada fala;

l      Indicam o momento de entrada em cena, o percurso a realizar, a personagem a quem se devem dirigir;

l      Indicam ao actor o estado de espírito da personagem e sua evolução ao longo da cena.

 

Em “Felizmente há Luar!” temos dois textos paralelos:

 

l      Um constituído pelas falas das personagens;

l      Outro que constitui a didascália.

 

l      É uma didascália muito especial porque contém preciosa indicação de trabalho quer para os actores quer para os encenadores pela variedade de indicações que vão sendo dadas.

 

A nós serve-nos para melhor entendermos as intenções do texto e para nos darmos conta da capacidade dramatúrgica de Sttau Monteiro.

 

l      A didascália colocada ao lado do texto possui um forte pendor descritivo e explicativo.

 

l      Quando imbricada no texto principal refere-se predominantemente à gestualidade e à marcação das personagens, à sua movimentação em cena, ao tom de voz.

 

O SOM

 

l      O som dos tambores

 

l      O som dos sinos

 

l      O som da fanfarra

 

l      O som dos tambores:

 

l      Simboliza a opressão, o medo da perseguição levada a cabo pelo regime;

l      Os tambores são o símbolo do poder, da repressão que este exerce sobre o povo, do medo que o povo sente (pág. 17 /18 /21);

l      O som dos tambores, em crescendo, marca, no final do Acto I, o triunfo do regime e do poder totalitário;

l      Esse som dos tambores simboliza também a irreversibilidade da decisão tomada – fazer de Gomes Freire o responsável pela conjura, de forma a retirá-lo do quadro da acção política;

l      São os tambores que, na perspectiva de Matilde, anunciarão o desenlace, no final do Acto II.

 

l      O som dos sinos:

 

l      Mostra o envolvimento da Igreja na repressão que se abate sobre o povo.

 

A ILUMINAÇÃO

 

 

l      Num palco simultâneo, os diferentes quadros são desvendados pela iluminação que incide sobre estas ou aquelas personagens.

 

l      A luz contribui para criar em cena um jogo entre as personagens e as relações que estas estabelecem entre si, ou reforça a importância que, naquele instante, aquela ou aquelas personagens têm (Acto I – pág. 63 / 64; Acto II – pág. 77).

 

l      A luz marca a entrada ou saída, do campo de visão do espectador, de determinada personagem (pág. 32 / 39 / 70 / 71).

 

l      A iluminação permite:

 

l      Estabelecer mudanças de cena;

 

l      Definir o espaço;

 

l      Acentuar um determinado ambiente;

 

l      Destacar uma determinada personagem;

 

l      Marcar a entrada ou saída de determinada personagem.

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Acção e Tragédia de "Felizmente Há Luar!"

A figura central é o General Gomes Freire que está sempre presente embora nunca apareça (didascália inicial – pág. 13) e que, mesmo ausente, condiciona a estrutura interna da peça e o comportamento de todas as outras personagens.

A defesa da liberdade e da justiça é uma atitude de rebeldia e constitui a hybris (desafio) desta tragédia.

Como consequência, a prisão dos conspiradores provocará o sofrimento (pathos) das personagens e despertará a compaixão dos espectadores.

O crescendo trágico, representado pelas diversas tentativas desesperadas para obter o perdão, acabará, em climax, com a execução pública do general Gomes Freire e dos restantes presos.

Este desfecho trágico conduz a uma reflexão purificadora (catharsis) que os opressores pretendiam dissuasora, mas que despertou os oprimidos para os valores da liberdade e da justiça.

 

CONCLUSÃO:

 

O que confere tragicidade ao texto é:

 

  1. O carácter excepcional das personagens:

           

ü      Gomes Freire, pela coragem, determinação e defesa intransigente dos ideais de liberdade;

 

ü      Matilde de Melo, pela nobreza moral, pelo conflito que vive entre os seus humanos sentimentos e a progressiva consciencialização do seu dever de verdadeira patriota.

 

2. A simplicidade da acção e o despojamento cénico;

 

3. O desenlace final: o martírio de Gomes Freire de Andrade.

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Estrutura Externa e Interna de "Felizmente Há Luar!"

A peça tem dois actos que não estão divididos em cenas.

 

Os actos são iniciados pelas falas de Manuel, “o mais consciente dos populares”.

 

1º acto: Gomes Freire de Andrade encontra-se na sua casa “para os lados do Rato donde não há qualquer referência que tenha saído”.

 

O 1º núcleo de personagens do povo – de que fazem parte Manuel, Rita, Antigo Soldado e vários outros populares sem nome – vêem no General o seu herói, o único homem que será capaz de os libertar da opressão, da miséria e do terror em que vivem.

 

É neste quadro que se insere a frase reticente de Manuel «se ele quisesse…» (pág. 21) o que significa que depositam nele expectativas e esperanças no sentido de ser ele quem poderá libertá-los da tirania da regência e da exploração dos ingleses de que são alvo.

 

O 2º núcleo de personagens do povo – constituído por Vicente, Andrade Corvo e Morais Sarmento e os dois polícias – vão contribuir, através da denúncia, da traição e da força das armas, para a prisão de Gomes Freire de Andrade e para a sua ulterior execução.

 

Em suma:

                                                       

                                                       

Freire de Andrade é o herói para: * Manuel

                                                     * Rita

                                                     * Antigo Soldado

                                                     * Outros populares

 

 

Freire de Andrade é objecto de denúncia por: * Vicente

                                                                         * Morais Sarmento

                                                                         * Andrade Corvo

 

 

Neste primeiro acto é feita a apresentação da situação, mostrando-se o modo maquiavélico como o poder funciona, não olhando a meios para conseguir os seus objectivos.

 

Vicente: Tenta denegrir junto do povo a imagem do General (pág. 24) – o que revela que despreza o povo ao mesmo tempo que desrespeita o General.

 

            Denuncia o General como presumível chefe da conjura.

 

            Vigia a casa do General, o que cumpre de forma eficiente (pág. 60 – 61).

 

 

2º acto:

 

O 2º acto conduz o espectador ao campo do antipoder e da resistência.

A acção centra-se na deambulação de Matilde cujo estatuto social lhe permite ter acesso às figuras do poder.

Matilde considera-se uma vítima inconformada de uma injustiça.

 

Matilde:

l      Suplica a Beresford que liberte o marido;

 

l      Intimida o povo à acção no sentido de lutar contra a opressão e pela libertação do marido;

 

l      Exige ao povo que se solidarize com ela;

 

l      Dirige-se a D. Miguel e sente o ultraje deste, primo do marido;

 

l      Dirige-se ao Principal Sousa a quem acusa de hipócrita e prepotente;

 

l      Sente o reconforto e a compreensão do frade que acabara de confessar o General preso em S. Julião da Barra;

 

l      Chega à serra de Santo António acompanhada de Sousa Falcão onde a fogueira queima o corpo de Gomes Freire de Andrade.

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OS TEMPOS DE “FELIZMENTE HÁ LUAR!”

 

A acção do texto situa-se em Portugal, em 1817, época conturbada e de crise, marcada pela ausência do rei no Brasil, a interferência britânica, a miséria do povo, a arrogância dos poderosos e o dealbar das primeiras revoltas liberais.

 

 

A referência a acontecimentos e figuras históricas reais criam um ambiente de verosimilhança, que facilita o estabelecimento de um paralelo com o presente.

 

Reconhece, na parte final do acto, que a morte do General não foi gratuita e nota-se nela um sinal de esperança e de optimismo.

 

Paralelo entre o tempo histórico de Felizmente Há Luar! (1817) e o tempo da escrita (o Portugal dos anos 60):

 

·        Épocas de crise, caracterizadas pela violência do poder e pela ausência de liberdade.

 

·        Épocas em que se assiste ao eclodir de manifestações que reclamam direito à justiça e à liberdade.

 

·        Épocas que anunciam o nascimento de “novos tempos”, marcados pelo aparecimento de uma nova solidariedade nacional (liberalismo oitocentista, por um lado, e o 25 de Abril de 1974, pelo outro).

publicado por novosnavegantes às 00:14
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Obra de Luís de Sttau Monteiro

LUÍS DE STTAU MONTEIRO

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·  (3/4/1926, Lisboa – 23/7/1993, id.).

 

·  Perpassa em toda a sua obra um irresistível impulso de liberdade, que se exprime sobretudo através da linguagem teatral.

 

·  Foi pelo romance que a sua carreira literária se iniciou:

           

            “Um Homem não Chora” (1960)

                                   Denuncia os comportamentos típicos da burguesia dominante

            “Angústia para o Jantar” (1961)

 

            “Felizmente Há Luar!” (1961):

                        O seu protagonista, o General Gomes Freire de Andrade, nunca aparece em cena, mas o seu calvário, da prisão à fogueira, é retraçado através da perseguição que lhe movem os governadores do Reino, da forçada resignação de um povo dominado pela miséria, o medo e a ignorância, da revolta desesperada e impotente de sua mulher.

           

            “Todos os Anos pela Primavera” (1963): carcereiros e detidos são prisioneiros do mesmo universo.

“O Barão” (1964)

 

            “Auto da Barca do Motor Fora da Borda” (1966)

           

            “A Estrada” e “A Guerra Santa” (1967):

                        Duas sátiras sobre a ditadura e a Guerra Colonial.

 

            “As Mãos de Abraão Zacut” (1968):

                        Denúncia do holocausto.

 

            Adaptação da “Relíquia”

           

            “Sua Excelência” (1971)

 

            “Crónica Aventurosa de Esperançoso Fagundes” (1977):

                        Revisão satírica de algumas fases cruciais da História de Portugal.

 

            “Chuva na Areia” (1982) – telenovela.

 

            “E se for Rapariga Chama-se Custódia” (1978) – novela.

 

·  Jornalismo: revista Almanaque e no Suplemento “A Mosca” do Diário de Lisboa.

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Quarta-feira, 25 de Abril de 2007

Poesia de Intervenção

Portugal Ressuscitado


José Carlos Ary dos Santos

(Caxias, 26 de Abril de 1974)

Depois da fome, da guerra
da prisão e da tortura
vi abrir-se a minha terra
como um cravo de ternura.

Vi nas ruas da cidade
o coração do meu povo
gaivota da liberdade
voando num Tejo novo.

Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido

Vi nas bocas, vi nos olhos
nos braços nas mãos acesas
cravos vermelhos aos molhos
rosas livres portuguesas.

Vi as portas da prisão
abertas de par em par
vi passar a procissão
do meu país a cantar.

Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido

Nunca mais nos curvaremos
às armas da repressão
somos a força que temos
a pulsar no coração.

Enquanto nos mantivermos
todos juntos lado a lado
somos a glória de sermos
Portugal ressuscitado.

Agora o povo unido
nunca mais será vencido
nunca mais será vencido.

                             

Utopia

Cidade

Sem muros nem ameias

Gente igual por dentro

Gente igual por fora

Onde a folha da palma

afaga a cantaria

Cidade do homem

Não do lobo, mas irmão

Capital da alegria

Braço que dormes

nos braços do rio

Toma o fruto da terra

É teu ati o deves

lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos

que não negas

o sorriso, a palavra forte e justa

Homem para quem

o nada disto custa

Será que existe

lá para os lados do oriente

Este rio, este rumo, esta gaivota

Que outro fumo deverei seguir

na minha rota?

José Afonso

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Dia Mundial do Livro

O dia 23 de Abril, Dia Mundial do Livro, foi um dia especial para mim, pois foi um dia com poesia.

 

De manhã assisti a uma sessão de Poesia de Intervenção dinamizada pelos alunos do 12º B, que nos recordaram a importância da poesia no antes e pós 25 de Abril.

 

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Recordámos vários poetas/cantores portugueses, como, por exemplo, Sophia de Mello Breyner Andresen, Sérgio Godinho, Joaquim Pessoa, Zeca Afonso, Egito Gonçalves, Manuel Alegre, Eugénio de Andrade, José Niza, António Gedeão, Brites dos Santos, Helena Guimarães, Ermelinda Duarte e Ary dos Santos.

 

À noite, assisti a um espectáculo de poesia, dinamizado pelo grupo Escola da Noite - Grupo de Teatro de Coimbra.

 

Foi um espectáculo fabuloso e completamente diferente de qualquer outro a que assisti até ao momento.

 

 

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Domingo, 22 de Abril de 2007

"Tabacaria" - análise

Talvez seja o poema mais conhecido de Álvaro de Campos. Oscilando entre o mundo interior e a realidade cósmica, universal, o poeta trata, ao mesmo tempo, da angústia com o quotidiano e dos sonhos de libertação. Isso pode ser observado a partir dos primeiros versos, cujo sentido vai se constituir na base de todo seu poema. Repare que o poeta é absolutamente niilista em relação a si próprio (“não sou nada./ Nunca serei nada./ Não posso querer ser nada”), mas, em compensação, ele sabe que tem “todos os sonhos do mundo”. Fechado em seu quarto, solitário, o eu-poético contempla uma rua, onde percebe um mistério, que é a morte e o destino que ninguém vê. Essa percepção extraordinária das coisas se dá devido à sua grande capacidade imaginativa, que o faz ver o que os outros não podem ver.

Vivendo seus sonhos, ele procura esquecer toda aprendizagem (isto é, aquilo tudo que aprendeu com os homens) e parte em busca da natureza, contudo essa solução não o satisfaz, na medida em que se sente desconfortável em qualquer lugar que esteja (“estrangeiro aqui, como em toda parte”, dirá o poeta em outro poema). Álvaro de Campos é radicalmente diferente de Alberto Caeiro (e mesmo de Ricardo Reis); a sua angústia, a sua lucidez não permitem que seja inocente, natural. Voltar à natureza torna-se uma utopia inútil. Na sequência, o poeta volta a opor a fantástica capacidade de sonhar à limitação do mundo exterior. Mas a sensação de euforia com o sonho não dura muito; mais adiante do poema, ele toma consciência de que os sonhos nada valem, pois as aspirações altas e nobres e lúcidas talvez nem vejam a luz do sol, nem atinjam ouvidos de gente. Na verdade, “O mundo é para quem nasce para o conquistar / E não para quem sonha que pode conquistá-lo”, ainda que tenha razão. Por isso, apesar de ter conquistado mais do que o grande conquistador Napoleão, de ter amado mais do que Cristo e de ter filosofado mais que Kant, isso de nada vale, na medida em que tudo se processou na imaginação. Para expressar essa sua impotência perante a realidade, Álvaro de Campos serve-se da imagem do homem que espera que lhe abram a porta numa parede sem porta, ou do homem que tenta fazer que sua voz chegue até Deus, cantando dentro de um poço tapado.

Assim, o poeta vê-se como um “escravo cardíaco de estrelas”, ou seja, uma pessoa que sonha com as estrelas e sofre de uma doença cardíaca, que o impede de ter emoções fortes, ou como quem só conquista tudo em sonhos. O resultado é um distanciamento cada vez maior da realidade, do mundo visível. A consciência disso causa-lhe um cansaço, um sofrimento, de maneira que passa a invejar uma menina que come chocolates inocentemente. Nesse momento, Álvaro de Campos toca num aspecto que é uma constante na obra de Fernando Pessoa: pensar é doloroso, por impedir o homem de ser feliz. Na outra estrofe, ao sentir o vazio dentro se si, o poeta procura alguma coisa que o inspire. Por isso recorre a musas inspiradoras do passado, mas a sensação de vazio continua a mesma, já que seu “coração é um balde despejado”.

Na realidade, Álvaro de Campos expressa aqui a angústia do homem moderno, que não encontra mais ponto de apoio para as suas inquietações e, por isso mesmo, se entrega ao desespero. Essa consciência da inutilidade de tudo leva Campos a sentir-se um exilado, um ser à parte em relação à humanidade. Ele imagina o mundo como se fosse um teatro, onde todos representam e o “eu” é o único que não sabe nem pode representar. Devido a isso, o seu lugar no teatro é no vestiário e nunca no palco.

Os versos finais do poema colocam frente a frente o eu-poético e o dono da tabacaria que representa o homem comum, o homem sem inquietações metafísicas. Ao vê-lo, o poeta experimenta uma sensação de desconforto e passa a ter a sensação da absoluta inutilidade de tudo, até da própria poesia. O poema fecha com a absoluta solidão do poeta, que tem consciência de que nada vale a pena, enquanto o dono da tabacaria, sem consciência alguma do que o rodeia, apenas sorri.

 

 

 

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"Mar Português" - análise

 

 

Tema: O mar - desgraça e glória do povo português.

Três partes lógicas:

1ª parte  ⇒ Dois primeiros versos

  • É uma exclamação do poeta sintetizando as desgraças que o mar nos causou:

             "Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!"

 

 

            Þ Muitas vidas se perderam. Muitos marinheiros foram vítimas de naufrágio ou morreram trespassados pelas flechas dos índios.

 

2ª parte ⇒ Restantes 4 versos da 1ª estrofe

 

  • Justifica as contrapartidas negativas que o mar nos trouxe:

               ⇒Para que o mar fosse nosso, mães choraram, filhos rezaram em vão e noivas ficaram por casar.

 

3ª parte ⇒ 2ª estrofe

  •        Pergunta se valeu a pena suportar tais desgraças, respondendo ele próprio que tudo vale a pena ao ser humano dotado de uma alma de aspirações infinitas. → É que toda a vitória implica passar além da dor e, se Deus fez do mao o local de todos os perigos e medos, a verdade, é que, conquistado, é ele o espelho do esplendor do céu. As grandes dores são o preço das grandes glórias: "Deus pôs o perigo e o abismo no mar, mas nele é que espelhou o céu" (a glória).

  

Recursos Estilísticos:

 

  • Apóstrofe ⇒«Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!» ⇔ Metáfora e Hipérbole
  • O Sal é amargo no sabor e as lágrimas são amargas não só no sabor, mas também no que elas traduzem de sofrimento e dor. ⇒Símbolo do sofrimento, de tantas tragédias provocadas pelo mar.
  • O som l repetido nas palavras fundamentais dos dois primeiros versos ⇒Sugere uma relação necessária e fatal entre as duas realidades: o mar e o sofrimento do povo português.

⇒A confirmar esse sofrimento aparecem as mães, os filhos, as noivas  ⇔ três elementos importantes da família  ⇒ Sugere que foi no plano do amor familiar que os malefícios do mar mais se fizeram sentir.

 

  • Metáfora ⇒ «Por te cruzarmos...» (v.3) → Aponta para cruz, sofrimento.
  • Formas verbais ⇒ Choraram, rezaram, ficaram por casar traduzem sofrimento, aflição, uma dor provocada pela destruição do amor (fraternal, filial e de namorados).

⇒ Isto só porque quisemos que o mar fosse nosso ⇒ Realçado por «Por te cruzarmos» (v.3); «Para que fosses nosso» (v.6).

  • Anáfora → Quantas/Quantos/quantas ⇒ Vem realçar a frequência dessas desgraças familiares.
  • Reiteração ⇒ «valeu... vale» (v.7); «passar... passar» (vs. 9/10) ⇒ Realça a relação necessária entre a dor e o heroísmo.

   

Bibliografia: BORREGANA, António Afonso - O texto em análise. Lisboa: Texto Editora, [s.d.]. 

publicado por novosnavegantes às 21:40
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"O Mostrengo" - conclusão da análise

O Mostrengo e o Gigante Adamastor

 

·        Onde eles mais se parecem é no seu conteúdo épico (a força invencível do mar e a vontade férrea de um marinheiro que representa a força de um povo.

·        O fim dos dois é elevar os portugueses ao nível da heroicidade.

·        O texto de pessoa é mais curto que o de Camões

                                                        ß

Por isso, mais denso, mais simbolista, sendo nele mais importante o que se sugere do que o que se afirma claramente.

 

·        Pessoa ® Mais verosimilhança, ao colocar o homem do leme ao serviço de D. João II (foi neste reinado que se ultrapassou o Cabo das Tormentas).

 

Camões ® O interlocutor do Gigante é Vasco da Gama, ao serviço de D. Manuel I.

 

·         Pessoa ® Mais profundamente épico-dramático = centra a emoção na pessoa do homem do leme, que evolui do medo para a coragem e ousadia; o terror e repugnância do Mostrengo esbatem-se à medida que cresce a força e a coragem do marinheiro.

·         Pessoa ® O monstro é vencido pela coragem do marinheiro.

 

Camões ® é o Gigante que se declara um herói vencido pelos males do amor.

                    ß

A tensão dramática e a força épica diluem-se bastante, na medida em que o poeta transpõe a tensão emocional do marinheiro para o Gigante.

 

·         Nível lexical Þ expressões caracterizantes do Gigante (horrendo e grosso) e do mostrengo (imundo e grosso).

 

Þ Os dois usaram o adjectivo grosso para nos dar a ideia de monstro feio, mas Pessoa preferiu imundo a horrendo (= dois latinismos, qualquer deles muito expressivo).

 

 

 

Conclusão: A sombra de Camões projecta-se claramente neste poema, o que não tira originalidade ao poeta da Mensagem que foi superior a Camões em densidade épico-dramática.

 

 

Bibliografia: BORREGANA, António Afonso - O texto em análise. Lisboa: Texto Editora, [s.d.]. 

publicado por novosnavegantes às 21:22
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"O Mostrengo" - cont. da análise

O Tom Épico do poema:

 

·                 Predominância de verso decassilábico

·               Harmonia imitativa produzida pelos v pelos z e pelo ch (= o som de voar do mostrengo)

·                 Abundância de sons fechados e nasais

·                 A frequência dos r

 

Conferem a este poema um estilo «alto e sublimado», «de tuba canora e belicosa», próprio da epopeia, da poesia épica.

 

 

® Contribuem para esse estilo «alto e sublimado» todos os recursos estilísticos vistos anteriormente.

 

Þ A nível formal o poema enquadra-se dentro da poesia épica:

 

Þ o seu conteúdo, a sua finalidade é o que mais o coloca dentro da poesia épica.

 

            ® Ressalta aqui o mesmo espírito cavaleiresco, de exaltação patriótica, que existe n’ ”Os Lusíadas”:

 

                  ® O homem do leme é todo um povo que quer o mar e que não se deixa vergar pelo monstro, símbolo de todos os medos do «mar sem fundo».

 

® Há, no final do poema, a sugestão de que o povo português vai continuar a luta contra o que humanamente é invencível, o «mar sem fundo».

            Estamos, portanto, no mundo dos heróis: este poema tem a dinâmica da poesia épica.

 

Bibliografia: BORREGANA, António Afonso - O texto em análise. Lisboa: Texto Editora, [s.d.]. 

publicado por novosnavegantes às 21:21
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"O Mostrengo" - cont. da análise

Þ A emoção dramática consegue-se através da expressividade das:

 

Metáforas Þ «nas minhas cavernas» (v. 6)

                          «meus tectos negros do fim do mundo» (v. 7)

                          «e escorro os medos» (v. 16)

                          «a vontade que me ata ao leme» (v. 26)

 

Cavernas/Tectos negros Þ sugerem o mistério impenetrável de qualquer coisa medonha

 

Escorro os medos Þ permanência do terror, qualquer coisa como uma fonte perene de medo

 

Ata Þ sugere a missão inalterável do marinheiro, ligado fatalmente à vontade de D. João II

 

Repetição (reiteração) Þ «Três vezes» (6 vezes)

                                                           ¯

                                   De conotação ocultista ou cabalística, ligada ao destino à fatalidade

 

Anáfora Þ Dois primeiros versos da 2ª e 3ª estrofes

 

Função emotiva Þ Exclamações (último verso de cada estrofe = espécie de refrão que repete a emotividade do marinheiro)

 

Interrogação Þ 1ª estrofe (uma vez), 2ª estrofe (3 vezes)

 

                        Þ Exprime a emotividade agressiva do mostrengo ® função emotiva, fática e imperativa.

 

Repetição do refrão Þ Acentua a ligação inabalável do marinheiro à vontade de El-rei; constitui uma espécie de coro, uma espécie de voz secreta do destino a incitar o marinheiro a cumprir a sua missão.

 

Personificação Þ Do mostrengo ® funciona como símbolo dos perigos e ameaças do mar tenebroso

 

 

 

Þ A tensão dramática atinge o clímax na última estrofe ® Drama no íntimo do homem do leme = dividido entre o terror e a coragem

                                   ß

            Simboliza a coragem, a determinação e a ousadia dos marinheiros portugueses de Quinhentos.

 

 

 

Bibliografia: BORREGANA, António Afonso - O texto em análise. Lisboa: Texto Editora, [s.d.]. 

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"O Mostrengo" - análise

Þ O texto abre com uma referência ao mostrengo (v. 1) e fecha aludindo a «El-rei D. João Segundo!» (v. 27).

 

Þ São exactamente eles os representantes das duas forças que se contrapõem no texto:

® o poder e os perigos do mar (forças da natureza), representados pelo Mostrengo;

® a determinação dos portugueses, representada por El-rei D. João II.

 

Þ Ambos ocupam no texto um lugar de destaque:

 

® um e outro são referidos ao longo do poema por 3 vezes:

 

ª Mostrengo – vs. 1, 12, 24;

ª Rei – vs. 9, 18, 27.

 

N. B. ® Notar as múltiplas referências cabalísticas ao número três:

                        § são 3 estrofes de 3x3 versos cada

                        § o Mostrengo voou 3 vezes

                        § ambos os intervenientes dialogam 3 vezes.

 

Þ Os 3 versos em que é referida a pessoa do rei ocupam no poema a posição de refrão. Û O que coloca D. João II em posição de superioridade em relação ao Mostrengo.

 

® Ao Mostrengo é dado o privilégio de titular o poema Þ saindo assim valorizada a vitória de El-rei sobre ele.

 

Þ Mas a contraposição de ambos não é feita directamente.

 

            ® O Mostrengo habita o mar, «está no fim do mar» (v. 1), é o senhor do mar e dos seus segredos (vs. 6/7), identifica-se com o mar tenebroso e desconhecido (vs. 15/16).

            ® Ao encontro desse poderio oculto, parte D. João II, mas não directamente, através de um intermediário que enviou em seu nome Þ o homem do leme (Bartolomeu Dias).

 

            Þ O confronto é pois estabelecido entre o mostrengo e este último, que representa o rei e, na pessoa do rei, todo o povo português.

 

                        ¨D. João II ® é a vontade

                        ¨O homem do leme ® é o seu agente

                                        ß

            Navega numa nau (vs. 3, 10, 11, 19, 20, 22, 26) à roda da qual o mostrengo vai volutear 3 vezes.

 

® A sua figura aparece construída à imagem da do Adamastor de Camões, mas não representa um monstro disforme, mas antes toma aspecto semelhante ao de um morcego:

 

            · Voa (v. 2)

            · Chia (v. 4) Þ intenção de exprimir a voz do morcego e o seu nervosismo por ver o seu domínio ameaçado

            · Habita cavernas (v. 6)

            · E tectos negros (v. 7)

            · Roça nas velas da nau (v. 10)

            · Vê as quilhas de alto (v. 11)

            · É imundo e grosso (v. 13)

 

® Apesar das diferenças, ambas as personagens representam o mar desconhecido, os segredos ocultos, o medo, os perigos que os portugueses se viram obrigados a enfrentar.

 

® O mostrengo com os círculos que tece em roda da nau (vs. 3, 4, 12, 13, 25) parece querer asfixiar os portugueses com a sua presença.

 

            ® Pretende provocar neles o medo e levá-los a voltar para trás, a desistir do empreendimento começado.

 

Þ O homem do leme, diante da garbosidade do mostrengo, revela a humildade de quem tem consciência do lugar que ocupa e do que está ali a fazer.

 

            ® A princípio mostra-se medroso.

 

Contudo, a pouco e pouco a determinação de que se encontra possuído vai vindo ao de cima e ele assume a convicção de que ali não se representa a si mesmo (v 22) mas a uma causa transcendente:

 

            · A vontade do seu rei e a determinação do seu povo (vs. 22 – 27).

 

® A tomada de consciência do homem do leme, acerca do lugar que ocupa, é gradual:

 

            · Da 1ª vez que responde ao mostrengo, mostra-se medroso – ele «disse, tremendo» (v. 8) e apenas responde «El-rei D. João Segundo!» (v. 9)

 

            · Da 2ª vez, nota-se uma evolução: «disse, tremendo» para «tremeu e disse» (v. 17)

 

            Antes tremeu, parou de tremer e disse, e já não disse a tremer, já reagiu ao choque sofrido, recuperou coragem. Mas não toda a coragem, o que disse é o mesmo que havia dito a tremer (vs. 9 e 18).

 

            · Da 3ª vez, tudo é diferente.

 

            Ele ainda se sentiu tentado a erguer as mãos do leme, a desistir do lugar que ocupava (vs. 19/20), mas logo caiu em si

 

                        «E disse no fim de tremer três vezes (v. 21)

                                                           ß

            É o recuperar definitivo da coragem, o assumir das responsabilidades de que se encontrava investido.

 

® O homem do leme recobra energias, e o mostrengo vai-as perdendo. Þ É o domínio do mar que muda de mãos.

 

® Quanto mais a presença do mostrengo se apaga, mais se revela a do homem do leme, de El-rei, do povo português.

            Þ É a fase oculta do mar que se desvenda, o mundo até aí desconhecido que se vai revelar.

 

® Este poema é dominado pelo tom dramático que se consegue através de:

 

a)      alternância do discurso directo-indirecto Þ introdução feita pelo poeta, diálogo entre o mostrengo e o marinheiro.

 

b)      grande tensão entre as duas personagens Þ agressividade do mostrengo e determinação do marinheiro.

 

c)      elevada tensão emocional Þ o mostrengo aparece envolto em mistério ( «está no fim do mar» - v. 1)

 

·        o mistério está também na expressão «três vezes» (repete-se 7 vezes)

·        expressão de mistério e terror – vs. 5/6/7, 15/16

 

d)      dinâmica agressiva do texto

 

·        verbos de movimentos incontroláveis, violentos de terror:

ergueu-se a voar (v. 2)

voou três vezes a chiar (v. 4)

ousou (v. 5)

tremendo (v.8)

roço (v. 10)

rodou (três vezes) (v. 12)

repreendeu (v. 20)

tremer (três vezes) (v. 21)

ata (ao leme) (v. 26)

 

e)      ambiente de terror e mistério:

 

® através de uma linguagem visualista apelando às sensações visuais e auditivas (sinestesia)

 

® através de uma linguagem impressionista que nos dá a localização espácio-temporal

 

·        sensações visuais e auditivas: noite de breu, cavernas, tectos negros, as quilhas que vejo, nas trevas do fim do mundo, voou três vezes a chiar, as quilhas que ouço.

·        Localização espácio-temporal: à roda da nau, no fim do mar, nas minhas cavernas, nuns tectos negros do fim do mundo, onde nunca ninguém me visse, mar sem fundo.

 

 

f)       Atitudes sinistras do mostrengo:

 

·        À roda da nau voou três vezes, rodou três vezes, três vezes rodou imundo e grosso, escorro o medo do mar sem fundo.

 

g)      Predominância das formas verbais e quase ausência de adjectivos denunciam a sucessão incontrolável, dramática dos acontecimentos Þ mesmo efeito tem a repetição da coordenativa e.

 

 

 

Bibliografia: BORREGANA, António Afonso - O texto em análise. Lisboa: Texto Editora, [s.d.]. 

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Análise de poemas da "Mensagem": "O Infante

 

 

Nos artigos seguintes vou vos deixar a análise de alguns poemas da grande obra "A Mensagem". Espero que o material que aqui vou publicar vos seja útil para a disciplina de Português B do 12º ano.

                                                    

O desenvolvimento do poema "O Infante" processa-se em três partes, ou três momentos.

 

A primeira parte é constituída apenas pelo primeiro verso, que contém uma afirmação tripartida de tipo axiomático, ou aforístico: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.


Os três termos desta afirmação seguem-se segundo a ordem lógica causa-efeito: o agente ou causa próxima da obra (efeito) é o homem, mas a causa remota, o primeiro determinante, é Deus. Se Deus não quisesse, o homem não sonharia e a obra não nasceria.

Note-se que o sentido aforístico da frase tem um valor universal: o substantivo Homem refere-se ao ser humano em geral e Obra designa qualquer acção humana. O poema parte, pois, de uma concepção providencialista da vida humana.

 

A segunda parte do texto ( do segundo verso da 1ª estrofe até ao fim da 2ª) apresenta-nos a vontade de Deus que quer toda a terra unida pelo mar, confiando essa missão ao Infante, que levou, como por encanto, essa «orla branca» até ao fim do mundo, surgindo, em visão miraculosa, «a terra.. redonda, do azul profundo».

Como se vê, esta segunda parte do texto subdivide-se em três momentos: a acção de Deus, a acção do Infante e a realização da obra.

 

A terceira parte é constituída pela última estrofe, em que se transpõe para o povo português a glória do Infante («Quem te sagrou criou-te português«).  Þ O povo português foi, pois, o eleito por Deus para esta façanha. Mas o poeta assinala também o desmoronar-se do império dos mares («o Império se desfez»), prevendo, no entanto, uma nova acção para renovação e engrandecimento de Portugal («falta cumprir-se Portugal»).

 

Vê-se, portanto, que o assunto evoluciona primeiro do geral (universal) para o particular: o «homem» e a «obra» do primeiro verso têm aplicação universal, ao passo que, na segunda parte, o «homem» se particulariza no Infante e a «obra» na epopeia marítima. Þ Dá-se, depois, na passagem da segunda para a última parte do poema, uma mudança de sentido oposto: transição de um plano particular (Infante) para um plano geral (Portugueses).

 

Verifica-se no poema uma dinâmica de tipo hegeliano. Já no primeiro verso aparece a sucessão tripartida: Deus Þ o homem Þ a obra. Mas onde se verifica mais claramente a dinâmica da tese, antítese e síntese é na última estrofe. Þ Pela vontade de Deus e pelo querer e acção do homem português, realizou-se a epopeia marítima, «Cumpriu-se o mar» (tese), mas, logo a seguir, «o Império se desfez» (antítese). ® Dá-se o desânimo nacional, uma pausa no caminho glorioso do nosso povo. Daí a súplica do poeta ao Ser que dá origem a tudo: «Senhor, falta cumprir-se Portugal!». Sugere-se, pois, uma nova acção de Deus e do homem português, de forma a repor, ou a acrescentar ainda mais, a glória do povo luso (síntese que é uma nova tese). Esta nova dinâmica tem de começar como no princípio, em Deus. De novo se vai repetir a mesma sequência causal do primeiro verso do poema: um impulso de Deus Þ um sonho do homem Þ e uma nova epopeia.

 

O poeta teve em vista realçar a função iniciática do Infante na obra dos Descobrimentos, acção essa que lhe foi confiada pela própria divindade. Daí o emprego de palavras carregadas de conotações simbólicas.

 

«Sagrou-te» Þ talvez ligada na mente do poeta à palavra Sagres (O Infante de Sagres), sugere a escolha do Infante para uma missão divina («Deus quer»).

 

Maiúsculas em «Mãe» e «Império» Þ processo destinado a dar às palavras uma dimensão marcadamente simbólica.

 

«Mar» Þ símbolo do desconhecido, do mistério.

                                   ß

Daí as expressões «desvendando a espuma» ® desfazendo o mistério, «nos deu sinal» ® dar a chave para desvendar o mistério, que denunciam já o levantar do véu, o caminhar para a plena luz.

 

As palavras ou expressões «espuma» (branca), «orla branca», «clareou», «surgir» (sair das sombras, revelar-se), «do azul profundo» (do mar imenso, do fundo do mistério) ® de conteúdo simbólico ® exprimem a passagem do mistério para a plena luz. Þ Esta passagem apresenta-se como repentina, espectacular, miraculosa. É o que sugere a expressão: «E viu-se a terra inteira, de repente, /Surgir redonda...»

 

Esta visão da «terra redonda», surgida repentinamente, sugere a ideia de que a obra dos portugueses é o realizar de um plano divino.

 

Redondo, esfera ® símbolo da perfeição cósmica, da unidade, da obra completa e perfeita que Deus quis: «Deus quer.../ Deus quis que a terra fosse toda uma...»

Infante ® símbolo do herói português escolhido por Deus para ser agente da sua vontade: «Quem te sagrou criou-te português».

 

É nítido no poema um certo pendor dramático, não só atendendo à tensão emocional, que se revela sobretudo na segunda estância, com a visão da terra redonda surgindo magicamente do azul profundo, mas, também, há três personagens: o sujeito emissor (o poeta), Deus e o Infante. Se os dois últimos não falam, o primeiro dirige-se ao Infante («sagrou-te», «Quem te sagrou», «em ti») e interpela Deus («Senhor, falta cumprir-se Portugal»). Há portanto um diálogo, pelo menos implícito, o que está de harmonia com o carácter misterioso, messiânico, do poema.

 

1º verso ® verbos no tempo presente (quer, sonha, nasce) ® o que está de harmonia com o discurso axiomático ou aforístico Þ tempo passado (quis, sagrou-te, foi, clareou, viu-se) ® narrativo de acontecimentos passados Þtempo presente («Falta cumprir-se Portugal»).

 

A sucessão presente Þ passado Þ presente ® sugere a dinâmica hegeliana da tese, antítese e síntese e seu retorno. Þ Após a primeira aventura vitoriosa dos portugueses, veio o desânimo. Por isso, o poeta exclama, voltando-se para Deus: «Senhor, falta cumprir-se Portugal». Este presente «falta» confere à frase uma sugestão de urgência, de necessidade.

 

A última frase do texto, com toda a sua indeterminação e ambiguidade, juntamente com todas as palavras e expressões carregadas de conotações simbólicas dá ao poema características simbolistas.

 

O poema é constituído por três estrofes, os versos são decassílabos, com acentos na sexta e décima sílabas.

 

São versos de ritmo largo (no geral ternário, mas às vezes binário).

 

Este ritmo, largamente repousado, convém a um discurso carregado de simbolismo, em que é mais importante o que está nas entrelinhas, do que o que denota a própria letra.

 

A rima, sempre cruzada, segundo o esquema rimático ABAB, CDCD, EFEF, permite que certas palavras chaves do poema se encontrem em posições de destaque, no fim dos versos, como «nasce», «uma», «mundo», «português», «sinal», «Portugal».

 

 

Bibliografia: BORREGANA, António Afonso - O texto em análise. Lisboa: Texto Editora, [s.d.]. 

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Álvaro de Campos: angústia existencial

 Exemplo de um texto expositivo-argumentativo, relativamente à temática apresentada.

 

A angústia existencial em Campos é um aspecto significativo porque está relacionada com o tédio, a náusea, a abulia que caracterizam a terceira fase.

Essa angústia é provocada pela dor de ser lúcido e possuído de loucura, mas consciente dessa loucura, o que intensifica o seu sofrimento: “lúcido e louco”, “alheio a tudo e igual a todos”, “dormindo desperto com sonhos que são loucura / Porque não são sonhos …” (“Esta velha angústia”).

Outro factor que contribui para essa angústia é o facto de ele se considerar um inútil, um “vaso vazio inútil” que se partiu em mil pedaços: “Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir”.

A angústia provocou em Campos um cansaço existencial devido às suas ambições não concretizadas na medida desejada: impossibilidade de anulação de todos os limites, sensações inúteis, paixões violentas por coisa nenhuma, amores intensos por o suposto em alguém; isto é: o viver excessivo, o correr cada momento no limite, o ter querido o finito e o possível, mas ter-se desiludido (“O que há em mim é sobretudo cansaço”).

Concluindo, Campos sente um cansaço de tudo, não especialmente, concretamente de coisa alguma; cansaço da vida e de si que lhe provoca uma grande angústia.

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Sebastianismo

Continuando a referir a obra "Mensagem" de Fernando Pessoa, acrescento alguns dados referentes ao mito sebastianista presente na obra.

 

Sebastianismo

 

O Sebastianismo é um mito nacional religioso. "D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco..."

 

O sebastianismo, fundamentalmente, o que é? É um movimento religioso, feito em volta duma figura nacional, no sentido dum mito. No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico (como, por um mistério espantoso e divino, a própria vida dele fora simbólica (mas em que não é absurdo confiar. D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, vindo da ilha longínqua onde esteve esperando a hora da volta. A manhã de névoa indica, evidentemente, um renascimento anuviado por elementos de decadência, por restos da Noite onde viveu a nacionalidade.

 

ü      D. Sebastião não morreu porque os símbolos não morrem. O desaparecimento físico de D. Sebastião proporciona a libertação da alma portuguesa.

 

ü      D. Sebastião aparece cinco vezes explicitamente na Mensagem (uma vez nas Quinas, outra em Mar português e três vezes nos Símbolos).
Aliás, pode mesmo dizer-se que o Brasão e o Mar português são a preparação para a chegada do Encoberto, na sua qualidade de Messias de Portugal.

 

ü      D. Sebastião faz uma espécie de elogio da loucura (condenação da matéria e sublimação do espírito).     

 

 

O número três é um número que exprime a ordem intelectual e espiritual (o cosmos no homem). O 3 é a soma do número um (céu) e do número dois (a Terra). Trata-se da manifestação da divindade, é a manifestação da perfeição, da totalidade.

 

O número sete assume também uma extrema relevância, senão vejamos, sete foram os Castelos que D. Afonso III conquistou aos mouros, sete são os poemas de Os Castelos.

O número sete corresponde aos 7 dias da criação, assim como as 7 figuras evocadas são também as fundadoras da nacionalidade (Ulisses fundou Lisboa, Viriato uma nação, Conde D. Henrique um Condado, D. Dinis uma cultura, D. João uma dinastia, D. Tareja e D. Filipa fundaram duas dinastias). Pessoa manteve na sua obra a ideia do número sete como número da criação.

 

O número sete é o número da perfeição dinâmica. É o número de um ciclo completo.
O número sete articula-se com o número quatro. Os 7 protagonistas de Os Castelos vêm dos 4 cantos do mundo (França, Inglaterra, Ibéria e Grécia). Note-se que cada período lunar tem 7 dias e existem 4 fases que fecham o ciclo. Perpassa a ideia de algo que se completa, de um ciclo que se fecha. O número sete é um símbolo de totalidade, de união do feminino com o masculino. Consciente dessa tradição, Pessoa divide o 7 em duas partes – D. João, o primeiro e D. Filipa de Lencastre, ou seja, o animus e a anima, o yin e o yang, o Adão e Eva, o Sol e a Lua.

 

O número cinco está ligado às chagas de Cristo, às Quinas e aos cinco impérios sonhados por Nabucodonosar. Os quatro impérios já havidos foram a Grécia, Roma, a Cristandade e a Europa pós-renascentista. Se o 5º império fosse material, Pessoa não teria dúvidas em apontar Inglaterra, mas como o 5º Império é o do ser, da essência, do imaterial, o poeta não tem dúvidas em apontar Portugal.

Se o número sete é o número da perfeição, o três da divindade, o cinco é o número da evolução espiritual do homem.

Pessoa escolheu cinco mártires da nação para corresponderem às cinco quinas (D. Duarte, D. Pedro, D. Fernando, D. João e D. Sebastião). O Brasão está dividido em 5 partes, tantas quantas as partes do nosso símbolo heráldico – Campos, Castelos, Quinas, Coroa e Grifo).

 

N’Os Lusíadas, as quinas representam os cinco reis vencidos por D. Afonso Henriques na Batalha de Ourique.

O número doze assume relevância na segunda parte da Mensagem Mar Português. Doze são os poemas de Mar Português, 12 eram os discípulos de Cristo, 12 os Cavaleiros da Távola Redonda, 12 os meses do ano, 12 os signos do Zodíaco. O número 12 é o número da acção. Nesta parte da Mensagem, Portugal está fundado na vida activa (a posse dos mares). 

O número oito é o número das pontas da Cruz da Ordem de Cristo, a cruz que as caravelas ostentavam. Oito letras tem Portugal e oito letras tem Mensagem.

 

 

FIM

 

publicado por novosnavegantes às 21:00
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"Mensagem" e "Lusíadas"

Acrescento no blog alguns aspectos que considero significativos para o estudo comparativo destas duas grandes obras da Literatura Portuguesa - "Mensagem" de Fernando Pessoa e "Lusíadas" de Luís de Camões.

 

 

A comparação entre "Os Lusíadas" e a "Mensagem" impõe-se pelo próprio facto de esta ser, a alguns séculos de distância e num tempo de decadência – o novo mito da pátria portuguesa.

 

 

 

 

 

Os Lusíadas

 

 

A Mensagem

ü      Homens reais com dimensões heróicas mas verosímeis;

 

ü      Heróis de carne e osso, bravos mas nunca infalíveis;

ü    Heróis mitificados, desincarnados, carregando dimensões simbólicas

 

v     Brasão ® Terra ® Nun’Álvares Pereira

v     Mar Português ® Mar ® Infante D. Henrique

v     O encoberto ® Ar ® D. Sebastião


(de uma terra de dimensões conhecidas parte-se à descoberta do mar e constrói-se um império. Depois o império se desfez e o sonhos e o Encoberto são a raiz a esperança de um Quinto Império)

ü      Herói colectivo: o povo português

ü      Virtudes e manhas


ü      Heróis individuais exemplares (símbolos)

 

ü      D. Sebastião (rei menino) a quem Os Lusíadas são dedicados; “tenro e novo ramo”      


ü      D. Sebastião mito “loucura sadia”

Sonho, ambição

(repare-se que d. Sebastião é a última figura da história a ser mencionada, como se se quisesse dizer que Portugal mergulhou, depois do seu desaparecimento num longo período de letargia)

 

ü            Celebração do passado – história

ü            Glorificação do futuro – símbolos

ü            Messianismo a mola real de Portugal

ü             

ü            Narrativa comentada da história de Portugal (cf. Jorge Borges de Macedo)
Teoria da história de Portugal

ü            Metafísica do Ser português

ü            Três mitos basilares:

o        Adamastor

o        Velho do Restelo

o       A ilha dos amores

ü            Tudo é mito – “o mito é o nada que é tudo”

 

 

 

ü      Acção

ü                        Contemplação

ü                        Altiva rejeição do real

ü      Império feito e acabado

ü                        Portugal indefinido, a temporal

ü       

ü          Saudade profética ® saudades do futuro

ü      Façanhas dos barões assinalados

ü          Matéria dos sonhos

ü      Temporalidade

 

ü          A temporalidade mística

ü      Síntese de pagão e cristão

ü          Síntese total (sincretismo religioso)

ü      D. Sebastião como enviado de Deus para alargar a Cristandade

ü     Portugal como instrumento de Deus

(os heróis cumprem um destino que os ultrapassa)

ü      Cabeça da Europa

ü      Rosto da Europa que aguarda expectante o que virá

 

                        

Os Lusíadas

 

Viagem, aventura, risco (elementos viris)          

D. Sebastião físico

Império terreno

Evocação

Portugueses 

(um império que já não é)

 

 

 

A Mensagem

 

D. Sebastião mítico

Elemento onírico

O encoberto

O desejado

Império Espiritual

Invocação

Atitude Metafísica

Essência de Portugal

Abstracção

 

O projecto da Mensagem é o de superar o carácter obsessivo e nacional d’Os Lusíadas no imaginário mítico-poético nacional. Os Lusíadas conquistaram o título de “evangelho nacional” e foram elevados à categoria de símbolo nacional. A Mensagem logo no seu título aponta para um novo evangelho, num sentido místico, ideia de missão e de vocação universal. O próprio título indicia uma revelação, uma iniciação.

Pessoa previa para breve o aparecimento do “Supra-Camões” que anunciará o “Supra-Portugal de amanhã”, a “busca de uma Índia Nova”, o tal “porto sempre por achar”.
          A Mensagem entrelaça-se, através de um complexo processo intertextual, com Os Lusíadas, que por sua vez são já um reflexo intertextual da Eneida e da Odisseia. Estabelece-se portanto um diálogo que perpassa múltiplos tempos históricos. Pessoa transforma-se num arquitecto que edifica uma obra nova, com modernidade, mas também com a herança da memória.

  Em Camões memória e esperança estão no mesmo plano. Em Pessoa, o objecto da esperança transferiu-se para o sonho, daí a diferente concepção de heroísmo.

Pessoa identifica-se com os heróis da Mensagem ou neles se desdobra num processo lírico-dramático. O amor da pátria converte-se numa atitude metafísica, definível pela decepção do real, por uma loucura consciente. Revivendo a fé no Quinto Império, Pessoa reinventou um razão de ser, um destino para fugir a um quotidiano
absurdo.

           O assunto da Mensagem é a essência de Portugal e a sua missão por cumprir. Portugal é reduzido a um pensamento que descarna e espectraliza as personagens da história nacional.

          A Mensagem é o sonho de um império sem fronteiras nem ocaso. A viagem real é metamorfoseada na busca do “porto sempre por achar”.

 

 

“A Mensagem comparada com Os Lusíadas é um passo em frente. Enquanto Camões, em Os Lusíadas, conseguiu fazer a síntese entre o mundo pagão e o mundo cristão, Pessoa na Mensagem conseguiu ir mais longe estabelecendo uma harmonia total, perfeita, entre o mundo pagão, o mundo cristão e o mundo esotérico.” (Cirurgião: 1990,19)

 

“A Mensagem é algo mais, muito mais, que uma mera viagem temporal e espacial pela mitologia, pré-história e história de Portugal. É essencialmente uma viagem pelo mundo labiríntico dos mistérios e dos enigmas e dos símbolos e dos signos secretos, em demanda da verdade.”

Cirurgião, António, 1990 O olhar esfíngico da Mensagem de Fernando Pessoa

 INLC, Ministério da Educação

 

 

A Mensagem reparte-se em dois vectores:

 

ü      Busca ôntica – procura da essência da lusitanidade e definição da nossa idiossincrasia

ü      Inquirição – questionação do mesmo histórico a seguir e a fazer seguir como projecto nacional colectivo

 

Pessoa é um exemplo desta obsessão nacional – a espera de um Messias.
A história de Portugal não oferece problemas à elaboração de um mito nacional. Ela está cheia de elementos e contém já um grande mito, o sebastianismo. Pessoa distinguiu o seu sebastianismo, apelidando-o de racional. O regresso de D. Sebastião é associado ao aparecimento do Quinto Império. Pessoa abandona os Impérios materiais para elaborar impérios espirituais – Grécia, Roma, Cristandade, Europa pós-renascentista e, agora, Portugal. O Quinto Império já estava escrito nas trovas do Bandarra e nas quadras do Nostradamus. O nacionalismo tradicional é superado por um nacionalismo cosmopolita.

Pessoa, criador do fundo e da forma do mito, anuncia-se como um supra Camões. A realidade é activada pelo Mito (força catalizadora).

 

 

 

FIM

publicado por novosnavegantes às 20:59
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Fernando Pessoa e os Heterónimos (2)

O ano de 2006/2007 trouxe, também, até mim alguns alunos que admiravam muitíssimo Fernando Pessoa e os seus Heterónimos.

 

Para além de textos e apresentação de trabalhos escritos, surgiu também uma tela elucidativa da figura de Fernando Pessoa e dos seus Heterónimos, intitulada "Ele e os Outros Ele".

 

Vou deixar neste espaço a tela pintada pela Mariana Chaves e o texto que ela escreveu sobre Fernando Pessoa, antes de eu dar o autor.

É um texto lindo, que mostra de forma muito clara a sua admiração, o seu encanto por esta personalidade tão extravagante, tão imprevista da nossa literatura.

 

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Fernando Pessoa: um louco que sonha alto ou um génio desmedido?

 

Fernando Pessoa aos olhos da sociedade de que fazia parte era um louco, mas o mesmo Fernando Pessoa, hoje, na nossa sociedade e na nossa literatura é um génio. Um génio que deu à alma uma vida própria, deixando que esta, aliada ao subconsciente e à escrita, criasse um mundo novo, em que se refugiava com o seu cigarro, o seu café e a sua cachaça, todas as tardes.

 

E em cada poema deixava um pouco que dizia não ser seu ("Como se lhe fosse ditado", escreve), mas de outros homens: Vicente Guedes, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos ou António Mora. Todos eles habitam o dito mundo, e este, por ser criado numa só mente e por um só ser humano, podia ser limitado, pequeno, quase uma minúscula cidade; mas não; Fernando Pessoa criou um universo tão intenso, tão vasto que os seus habitantes, em cada poema, actuavam como uma longa-metragem ("alguns conheceram-se uns aos outros; outros não").

 

Desta forma, cada uma destas personagens, correspondia a um estado de espírito, a uma disposição, a uma aura do génio, "Tenho, na minha visão a que chamo interior (...) plenamente fixas, nítidas, conhecidas e distintas, as linhas fisionómicas, os traços de carácter, a vida, a ascendência, nalguns casos a morte destas personagens".

 

E se cada uma delas tinha a sua importância, Álvaro de Campos era sem dúvida aquela que se destacava. Talvez quando esta entrava em cena (pelas letras cuidadosamente conjugadas em versos), Pessoa estivesse num estado de semi-consciência, de transição, de passagem entre o sonho e o real, entre a Terra e o mundo da poesia que ele próprio criara.

 

Nessa altura, escapava um pouco de si próprio, ("do autor humano destes livros"), para o papel e por entre as linhas ter-se-ia reconhecido algumas vezes: "A mim pessoalmente, nenhum me conheceu, excepto Álvaro de Campos".

 

Desta forma, conhecê-lo a ele, ao Poeta, pode ser mais fácil se se delimitar nos poemas deste último heterónimo, onde acaba quem se diz autor dos mesmos, e onde começa o realizador, o génio desmedido ou "Louco que sonha alto", que foi Fernando António Nogueira Pessoa.

 

Conhecê-lo é não ler cada palavra escrita por seu punho, só por olhar, é perceber o significado de cada uma em si mesma, enquadrando-a no pensamento, no espírito e no dia-a-dia de quem a escreveu. Esta não é, porém, uma tarefa fácil, exige perspicácia, informação e conhecimento.

 

Conhecer Pessoa é apercebermo-nos da vida, da vivência, da vitalidade e da vivacidade que ganha cada rima no seu contexto. Mas afinal, tal como questionara o poeta "O que é a Vida?"...

 

FIM

 

 

Multipliquei-me, para me sentir

Para me sentir,

precisei sentir tudo,

Transbordei,

não fiz senão

extravasar-me,

Despi-me, entreguei-me,

E há em cada canto

da minha alma

um altar

a um deus diferente.

 

                  Fernando Pessoa

publicado por novosnavegantes às 17:06
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Fernando Pessoa e os Heterónimos

Fernando Pessoa é o poeta de que aprendi a gostar e que me abriu os olhos para o Mundo, para as possibilidades infinitas de viver e sentir a vida.

 

Adoro Fernando Pessoa. Adoro este poeta tão nosso e de todos, tão abrangente do Universo, tão completo, tão complexo e tão simples...

 

Tenho, ao longo do meu percurso, encontrado alguns jovens que nutrem, também, um gosto muito especial por Pessoa.

O ano 2005/2006 foi o ano que me deu a conhecer alguém muito especial que gosta e admira Fernando Pessoa, a Catarina Brás.

 

A Catarina elaborou, como síntese do estudo de Fernando Pessoa, um diálogo entre este grande poeta e os seus heterónimos. Este diálogo foi depois dramatizado e apresentado a outros colegas que adoraram o resultado final.

 

Como no ano transacto não tive a oportunidade de divulgar o texto da Catarina, apresento-o, agora, no meu blog, para que o maior número possível de pessoas o possa conhecer e, acerca dele, opinar.

 

Diálogo inquietante do criador no espaço incolor mas real do sonho que atravessa a sua poesia

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“Custa-me imaginar que alguém possa um dia falar melhor de Fernando Pessoa que ele mesmo. Pela simples razão de que foi Pessoa quem descobriu o modo de falar de si tomando-se sempre por um outro. E como os deuses lhe concederam um olhar imparcial como a neve, o retrato que nos devolve do fundo do seu próprio espelho brilha no escuro como uma lâmina”.

 

Eduardo Lourenço

 

  

                Lisboa, bairro do Chiado, um dia chuvoso de Outono, final dos anos 20. Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis sentam-se ao redor de uma mesa no café A Brasileira.

 

-Estou farto de improfícuas agonias – afirma Pessoa.

 

-Mas tu mesmo – pergunta Campos – não disseste que tudo é ilusão, sonhar é sabê-lo?

 

-E não pediste em canção ao Senhor – lembra Caeiro, (…) que ele nos desse ao menos a força de não mostrar a dor a ninguém?

 

-E quem disse que mostro? – reagiu Pessoa. – Não uso o coração, por isso escrevo livre do meu enleio. Sentir? Sinta quem lê! – continua Pessoa – Até porque toda a minha vida e a minha poesia resultaram do fingimento, da intelectualização das emoções! Digam lá que não se trata de uma brilhante filosofia de vida!

 

-Apenas criaste essa filosofia de forma a fugir à dor de pensar, essa dor que te invade profundamente e até levou à minha criação em Pessoa – retorquiu Caeiro.

 

-Realmente, Caeiro, tudo em mim é dor, de tal forma que já não me reconheço. Tornei-me múltiplo, tenho um drama interior que me traz infelicidade. Vocês são tudo, são a minha alma estilhaçada – confirma Pessoa.

 

-E eu? Estou mais próximo de ti, estou na fase mais íntima e pessimista da minha carreira. Identifico-me com Pessoa. A minha poesia é estranha, só sei que devo relembrar a infância de forma a usufruir da vida – sem memória tornamo-nos inúteis – afirma Álvaro de Campos.

 

-Só há uma única forma de usufruir da vida, viver o momento, aproveitá-lo, agarrá-lo com quatro mãos. No entanto, quando atingimos o pico dessa fruição, devemos largá-lo, deixá-lo voar, porque apegarmo-nos às coisas só nos traz dor. Por isso, é que vocês têm infelicidade e dor porque usufruíram demasiado o tempo da infância – afirma Ricardo Reis.

 

-Ricardo, aprende uma coisa, a infância é a nossa arma, é nela que apreendemos as matérias necessárias para nos tornamos homens, é aí onde tudo é belo, onde não há dor, aquela dor que me invade. Na infância, a pureza somos nós e nada melhor que aproveitar esse tempo porque é efémero – relembra Pessoa.

 

-Já eu posso afirmar que continuo uma autêntica criança, porque não tenho filosofia, tenho sentidos. Eu amo a Natureza, não é porque saiba o que ela é, mas porque a amo e amo-a por isso. A forma como admiro a Natureza é como se fosse uma criança com um novo brinquedo – continua Caeiro – No meu interior só está patente a ingenuidade, porque as coisas são aquilo que são. Não procuro saber a sua essência porque a minha existência já traz confusão.

 

-Talvez tenhas razão, ou talvez não, porque a própria ingenuidade das coisas é suficiente para a criação poética; escrever em poesia é uma qualidade minha e consegui transferi-la para três personagens totalmente distintas – afirma Pessoa.

 

-Fernando, para mim foram transferidas todas essas qualidades de escrever poesia, mas sou diferente, porque sou o poeta do equilíbrio perfeito – diz Reis.

 

- Eu também tenho o dom de escrever poesia, mas sou o poeta da natureza, aquele que deambula pelo campo, aquele que nunca sabe o que ama, nem por que ama, nem o que é amar – retorquiu Caeiro.

 

- Pois, eu sou o único poeta que se aproxima de ti, sou sem dúvida o teu grande amigo. Conheço-te bem tal como me conheces, sofro de lucidez, cansaço, tédio e abulia. Estes são teus sentimentos. Talvez eu seja, das três sombras que tu tens, aquela que se encontra mais próxima – afirma Álvaro de Campos.

 

-Realmente, todos esses sentimentos invadem a minha alma, o tédio e a angústia. Foram estes aspectos que me dividiram e por isso afirmo que não sei ser triste a valer, nem alegre deveras, acreditem: Não sei ser. Considero-me perdido no meu mundo, chego a pensar que não sei quem sou, que alma tenho. Por vezes, sinto-me viver vidas alheias – confessa Pessoa.

 

            Após estas palavras, parou de chover. A nuvem que cobria a claridade do dia afastou-se e o sol brilhou e sorriu como quem ambicionava participar na conversa.

 

-Este sofrimento tem de ser ultrapassado. Devemos aproveitar a vida enquanto dura, abdicando de todos os sentimentos ou emoções que nos criam uma ligação mais forte ao mundo – afirma Reis.

 

-Essa dor de que vocês falam não faz parte do meu vocabulário; nada melhor que andar pela mão das estações porque eu creio no mundo como um malmequer, porque o vejo, mas não penso nele porque pensar é não compreender. Para sermos felizes, devemos acariciar as coisas concretas, isoladamente, com os nossos cinco sentidos – declara Caeiro.

 

-Essa tua forma de pensar, Caeiro, deixa-me estúpido e ignorante porque eu sofro por tudo, por pensar, por ser lúcido e tu, um poeta da natureza, com riqueza interior. Sou mesmo inferior e, por isso, considero-te o meu Mestre. És a personagem mais simples, mas a mais maravilhosa desta minha constelação – garante Pessoa.

 

-Eu, que tentei cantar a modernidade, aproximei-me de ti; sou demasiado ligado às tuas vivências e, por isso, agora tenho fobia à estética, à moral, aos sistemas, às descobertas, à ciência que funcionam como base da estruturação mental e social. Eu apenas procuro estar sozinho, só eu e as minhas memórias. Esta é a única forma que eu encontro de estar no mundo. Eu não quero nada, não me peguem no braço porque eu quero estar sozinho! – grita Álvaro de Campos.

 

-Deixem as memórias, elas são a nossa alegria, mas também o nosso pesadelo porque quanto mais pensamos nelas, mais as queremos. Querer, acreditar e viver pelas memórias é atirar pela janela o último dia da nossa vida – afirma Ricardo Reis.

 

-Cheguei a tal ponto que mal sei como conduzir-me na vida; este mal-estar apenas me faz feridas na alma, e assim fico cansado, aliás o que há em mim é sobretudo cansaço – garante Álvaro de Campos.

 

-Eu também estou sozinho no mundo – suspira Pessoa – posso abrigar-me nos sonhos para continuar a sorrir; eu sou um sonhador, toda a minha vida foi de passividade e de sonho. Como a realidade é dolorosa, efémera, rotineira, refugio-me na fantasia;

 

-Os sonhos são enganadores, porque através dos sonhos não conseguimos captar a realidade. Eu não sonho, eu procuro a harmonia perfeita porque eu sou o argonauta das sensações verdadeiras – confessa Caeiro.

 

-Nos sonhos, a alma elimina o seu mal profundo, a música e o bem entram no coração. É ali, ali, que a vida é jovem e o amor sorri! – afirma Pessoa.

 

-Sonho sonhar o pecado da vida! Continuo a não perceber essa maneira peculiar de viver a vida. Carpe diem, a minha filosofia de vida. Aprendam comigo, não tenham nada nas mãos nem uma memória na alma – diz Ricardo Reis.

 

-Os sonhos e as memórias contribuem para usufruir da vida. É aí que encontramos a felicidade, apesar de ser breve – afirma Pessoa.

 

-Não! Este é o dia, esta é a hora, este é o momento, isto é quem somos e é tudo! – grita Ricardo Reis.

 

-Para mim, sonho, memória, tudo é solidão, um profundo cansaço. Ambicionava conhecer tudo de todas as maneiras, mas agora arde-me a cabeça, sou um ser profundamente dominado pelo tédio e pela abulia – retorquiu Álvaro de Campos.

 

-O sonho aparece como o único caminho. Trata-se de uma forma de evasão, de esquecimento. A vida e o tempo consomem-se, só nos resta o sonho. Para nós, poetas, o sonho é um hábito e o acordar para a realidade é um profundo desgosto – continua Pessoa – nos sonhos o pensamento é libertado para dar lugar à fantasia adormecida.

 

-Essa é a maior qualidade dos sonhos porque deixamos de pensar, o pensamento é o mal dos poetas. Já eu, não tenho esse mal porque eu penso com os olhos e com os ouvidos, com as mãos e com os pés. Às vezes dou por mim deitado na realidade, conheço-a e sou feliz. Agora pensar verdadeiramente nas coisas e tentar perceber a razão de tal existência é estar doente dos olhos – alega Caeiro.

 

-Isso Mestre, pensar é procurar a doença, devemos viver a vida sem nos preocuparmos com ela porque a vida está contra nós. Assim, viver a vida em ataraxia, viver na profunda harmonia, porque não vale a pena lutar contra o inevitável. Cada dia que passa, cada lágrima que cai apenas nos faz aproximar do fim derradeiro, caminhamos para a morte como aquele rio ali atrás que corre para o mar. Nada melhor que seguirmos aquelas doutrinas que eu aprendi lá no outro mundo, na Grécia, o estoicismo e o epicurismo. Vivo cada dia que passa com essas doutrinas e sinto-me feliz porque devemos colher o dia porque somos ele – afirma Ricardo Reis.

 

-Ai! Pensamento! Pensar, que desgosto! Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça! Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! Estou perdido no planeta do pensamento – suspira Álvaro de Campos.

 

            O rio lá atrás, que corria alegremente, abrandou o seu curso! O sol deixou de brilhar. A noite já espreitava pela janela. Apagava-se o som dos pássaros. A natureza entristeceu de repente, acompanhando o desmaiar do dia. Em redor da mesa onde se encontravam, tudo ficou mais escuro como se estivessem naquele momento no mundo dos pensamentos.

 

-Como escureceu tão rapidamente? – pergunta Ricardo Reis.

 

-Parece que não somos os únicos a participar nesta conversa. Ali atrás de todos aqueles edifícios há uma natureza que nos ouve, ela está em completa harmonia connosco – garante Caeiro.

 

- Caeiro, tu e a natureza! … Sempre a pensar que a trazes contigo. Ela está lá longe e tu aqui – comentou Álvaro de Campos.

 

-Não! Eu considero-me uma flor da natureza. Consigo olhar para o sol para receber a sua luz, porque a luz do sol vale mais que os pensamentos. Alguns que estão ao sol e fecham os olhos, esses rejeitam e têm inveja da beleza da natureza, porque tudo o que é maravilhoso arde e só alguns é que têm o dom de resistir a essa beleza superior – reage Caeiro.

 

-Tu, Caeiro, sempre a defenderes a tua natureza! Mas enquanto a natureza se mantém estagnada, do outro lado existe uma civilização, uma modernidade que precisa de ser cantada – afirma Álvaro de Campos.

 

-Discordo! – atalha Caeiro – Nas cidades e lá na tua modernidade a vida é mais pequena porque na cidade as grandes casas fecham a vista à chave.

 

-Mas isso é pura intelectualização – diz Pessoa.

 

-Na verdade – continuou Álvaro de Campos – fui o único poeta que sentiu sofrer alterações. Vocês conseguem manter todas as vossas teorias, defendem-nas com todas as armas que têm. Eu sinto-me perdido. Tenho múltiplas emoções. No início estava influenciado pelo decadentismo, procurava sensações novas, escrevia uma poesia pessimista. Depois fui influenciado pelo simbolismo. Só mais tarde enveredei pelo futurismo. Num estilo febril, ambicionava sentir tudo de todas as maneiras, mesmo aquela agitação da cidade … tinha febre de escrever. Tenho que agradecer ao meu amigo Whitman.

 

-E agora, cada vez mais próximo de mim, não é verdade? – pergunta Pessoa.

 

- Realmente, agora a minha poesia tornou-se um desabafo. Sou um poeta amargurado, reflectindo de forma pessimista e desiludida sobre a existência. Sinto-me invadido pelo tédio, pelo cansaço, pela solidão e pela abulia. Não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo – afirma Álvaro de Campos.

 

            Após estas palavras melancólicas e de desafio, Ricardo Reis e Álvaro de Campos confessam-se como discípulos de Alberto Caeiro. A noite desce largamente pelo bairro do Chiado.

 

-Na minha poesia tentei imitar o Mestre, mas estava demasiado apegado a todas aquelas ideias neoclássicas – confessa Reis.

 

-Eu sinto-me completamente frustrado por não ter conseguido seguir os preceitos do Mestre – afirma Álvaro de Campos.

 

-Meu Mestre, o meu coração não aprendeu a tua serenidade. O meu coração não aprendeu nada. A calma que tinhas deste-ma e foi-me inquietação – gritam de forma angustiada Reis e Campos.

 

Os quatro poetas entraram por momentos em profunda meditação. Lá no cimo, sorrindo e brilhando, aparecia a estrela mais bela da constelação.

 

-Já que nos encontramos aqui, numa onda de melancolia e de revelações, nada melhor que explicar o vosso aparecimento, pois, o poeta é um fingidor que finge tão completamente e eu, Fernando Pessoa, sinto-me múltiplo, parece que vivo vidas alheias como já afirmei – confessa Pessoa.

 

-Somos nós essas vidas alheias que resultam da tua fragmentação? – pergunta Caeiro.

 

-Mas afinal por que nos criaste? Porque é que somos os teus heterónimos? – questiona Campos.

 

-Desde criança que tenho tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. No fundo, há uma razão de tipo psiquiátrico. Existe em mim um profundo traço de histeria. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese …Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos, ou seja, a vossa origem, está na tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos são mentais e não afectam, Graças a Deus, o meu relacionamento com os outros. Fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Por exemplo, se eu fosse mulher, seria vergonhoso, pois cada poema teu, Álvaro de Campos, que és o mais histericamente histérico de mim, seria um alarde para a vizinhança, percebes? – explica Pessoa.

 

 

-Então … tudo em ti, como tu próprio dizes, acaba em silêncio e poesia… – conclui Álvaro de Campos.

 

-Exactamente – confirma Pessoa.

 

-Então nós não existimos? – perguntam os três ao mesmo tempo.

 

-Tudo isso significa que somos inventados e apenas servimos para um jogo, uma fruição? – questiona Reis.

 

- Não! Vocês são a minha vida, a minha alma, o meu coração. São os meus heterónimos! E prometo que os vossos nomes e os vossos versos, os versos de Caeiro, Reis e Campos serão conhecidos por todos. O destino da vossa obra é caminhar para a imortalidade e nós apenas temos a possibilidade de abrir a janela mais alta do mundo, pegar num lenço branco e saudar os versos mais maravilhosos e estupendos que alguém ousou escrever – afirma Pessoa.

 

-Pertencemos ao espaço ficcional da tua criação poética – assentiu Álvaro de Campos.

 

-Obrigado pela oportunidade que me deste de ser um homem da natureza sem filosofia e sem metafísica – diz Caeiro com simplicidade.

 

- Caeiro, tu és um poeta bucólico de espécie complicada. Nasceste no dia mais triunfal da minha vida. Apareceste em mim como o meu mestre, embora pareça absurda esta frase – lembra Pessoa.

 

- E isso faz de mim a simplicidade em Pessoa – diz prontamente Caeiro.

 

- Quanto a mim, agradeço-te teres-me dado a possibilidade de expor, por vezes ironicamente, a minha arte de viver decantada da sabedoria do passado – afirma Ricardo Reis.

 

- Eu fico-te grato por teres depositado em mim esta capacidade de “sentir, em lúcida histeria, de acordo com os ritmos do mundo moderno” – acrescenta Álvaro de Campos.

 

- No teu caso, Fernando, o poeta sobrepõe-se ao homem. A tua vida está na poesia. Logo os poetas não têm biografia. A tua obra é a tua biografia – suspira Caeiro.

 

- A minha alma gira em torno da minha obra literária – boa ou má, que seja, ou possa ser. Tudo o mais na vida tem para mim interesse secundário – sublinha Pessoa e acrescenta: Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração, até porque toda a minha vida e a minha poesia resultam do fingimento, da intelectualização das emoções. A poesia é arte – afirma Pessoa.

 

Era noite. Uma densa escuridão engole as três sombras de Fernando Pessoa. A estrela mais bela da constelação Pessoana sorriu e acenou ao poeta que julgava ter dialogado …

FIM

 

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Sábado, 21 de Abril de 2007

Poesia na Escola

No dia 17 de Abril, a Poesia andou à solta pela Escola Secundária de Seia.

 

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Andreia Macedo (http://andreiamacedo.blogs.sapo.pt/) veio até à nossa Escola para nos proporcionar momentos inesquecíveis de poesia.

 

O seu repertório foi muitíssimo vasto, incidindo, sobretudo, em poetas surrealistas.

 

Escutámos poemas de Alexandre O'Neill, Almada Negreiros, António Gedeão, Manuel Bandeira, Alberto Caeiro, Manuel da Fonseca, Wislawa Szymborska, Alexandre Pinheiro Torres, Mário Henrique Leiria, José Gomes Ferreira, Pedro Oom, Mário Cesariny, Joaquim Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Alberto Pimenta.

 

Esta fabulosa "animadora da poesia" proporcionou-nos momentos arrepiantes, perturbantes, envolventes, emocionantes, vivos, originais, extraordinários...

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Foram momentos que para sempre ficarão na alma de todos os que estiveram presentes.

 

Em jeito de curiosidade, aqui deixo alguns poemas que Andreia Macedo nos apresentou.

 

Arma Secreta

Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.

Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.

 

A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis de furalina.

Erecta, na noite erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.

 António Gedeão

 

                                                           

Alguns gostam de poesia

Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

 

Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

 

De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isso me agarro
como a um corrimão providencial.

 Wislawa Szymborska

                                         

POEMA DO AUTOCARRO

Quantos biliões de homens! Quantos gritos
de pânico terror!
Quantos ventres aflitos!
Quantos milhões de litros
do movediço amor!
Quantos!
Quantas revoluções na cósmica viagem!
Quantos deuses erguidos! Quantos ídolos de barro!
Quantos!
até eu estar aqui nesta paragem
à espera do autocarro.
E aqui estou, realmente.
Aqui estou encharcado em sangue de inocente,
no sangue dos homens que matei,
no sangue dos impérios que fiz e que desfiz,
no sangue do que sei e que não sei,
no sangue do que quis e que não quis.
Sangue.
Sangue.
Sangue.
Sangue.

Amanhã, talvez nesta paragem de autocarro,
numa hora qualquer, H ou F ou G,
uns homens hão-de vir cheios de medo e sede
e me hão-de fuzilar aqui contra a parede,
e eu nem sequer perguntarei porquê.

Mas...

Não há mas.
Todos temos culpa, e a nossa culpa é mortal.

Mas eu só faço o bem, eu só desejo o bem,
o bem universal,
sem distinguir ninguém.

Todos temos culpa, e a nossa culpa é mortal.
Eles virão e eu morrerei sem lhes pedir socorro
e sem lhes perguntar porque maltratam.
Eu sei porque é que morro.
Eles é que não sabem porque matam.
Eles são pedras roladas no caos,
são ecos longínquos num búzio de sons.
Os homens nascem maus.
Nós é que havemos de fazê-los bons.

Procuro um rosto neste pequeno mundo do autocarro,
um rosto onde possa descansar os olhos olhando,
um rosto como um gesto suspenso
que me estivesse esperando.

Mas o rosto não existe. Existem caras,
caras triunfantes de vícios,
soberbamente ignaras
com desvergonhas dissimuladas nos interstícios.
O rosto não existe.

Procura-o.

Não existe.

Procura-o.
Procura-o como a garganta do emparedado
procura o ar;
como os dedos do afogado
buscam a tábua para se agarrar.

Não existe.

Vês aquele par sentado além ao fundo?

Vês?

Alheio a tudo quanto vai pelo mundo,
simboliza o amor.
Podia o céu ruir e a terra abrir-se,
uma chuva de lodo e sangue arrasar tudo
que eles continuariam a sorrir-se.

Não crês no amor?

Não ouves?

Não crês no amor?

Cala-te, estupor.
Tenho vergonha de existir.
Vergonha de aqui estar simplesmente pensando,
colaborando
sem resistir.

Disso, e do resto.
Vergonha de sorrir para quem detesto,
de responder pois é
quando não é.
Vergonha de me ofenderem,
vergonha de me explorarem,
vergonha de me enganarem,
de me comprarem,
de me venderem.

Homens que nunca vi anseiam por resolver o meu problema concreto.
Oferecem-me automóveis, frigoríficos, aparelhos de televisão.
É só estender a mão
e aceitar o prospecto.

A vida é bela. Eu é que devia ser banido,
expulso da sociedade para que a não prejudique.

Hã?

Ah! Desculpe. Estava distraído.
Um de quinze tostões. Campo de Ourique.

António Gedeão, Máquina de Fogo, 1961

                                             

Poema da Menina Tonta

A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa na rua,
que a outra metade fica
pra namorar-se ao espelho.

A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.

A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...

No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...

A menina tonta tem coração sem corda
a boca sem desejos
os olhos sem luz...

E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta
tem a cabeça cheia de farelos.

Manuel da Fonseca

publicado por novosnavegantes às 21:56
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Domingo, 15 de Abril de 2007

Buarcos

Hoje, 9 de Abril, matei as minhas saudades do mar.

 

Levantei-me muito tarde, mas deu para passear à beira-mar e recarregar baterias para mais um período de trabalho.

 

Como não podia deixar de ser, fomos comer sardinhas ao "Mar à Vista". Estavam deliciosas. A salada mista, alface, tomate e pimentos estava divinal.

Foi um repasto e «peras».

 

Regressámos a Seia depois de almoço, amanhã é dia de trabalho.

 

                          0001eg0p

 

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publicado por novosnavegantes às 16:59
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Viagem de regresso

Este foi um dia muito cansativo.

Levantámo-nos às cinco da manhã para apanharmos o avião no aeroporto de Amesterdão.

Chegámos a Madrid por volta das dez e esperámos até às catorze horas. O avião saiu com algum atraso.

 

A viagem decorreu sem sobressaltos até ao aeroporto da Portela em Lisboa e de seguida apanhámos o combóio para Coimbra de onde seguimos para a Figueira da Foz.

publicado por novosnavegantes às 16:55
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8º dia de férias

As férias estão a terminar, este é o último dia na Holanda, amanhã apanhamos o avião para casa.

 

Neste último dia, fomos às compras a Zoetermeer e, à noite, tivemos um jantar fabuloso em casa dos nossos anfitriões com um casal amigo.

Este casal, mistura de portuguesa e holandês, foi muito simpático e amistoso, o mesmo se estendendo aos seus filhos, um menino e uma menina.

 

Foi um jantar muito agradável para último dia de férias.

publicado por novosnavegantes às 16:49
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7º dia de férias

No dia 6 de Abril, fomos às compras ao mercado de Zoetermeer, ao ar livre. É parecido com as nossas feiras.

 

De tarde fomos visitar a cidade de Delft, conhecida pela terra da louça azul - Delft blauw. (http://www.delfttiles.com/)

 

É uma cidade muito bonita, atravessada por canais, como todos os lugares da Holanda. ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Delft)

 

                                               

 

Lanchámos na esplanada de um café em frente à catedral e comemos, sem dúvida, os típicos poffertjes, acompanhados com chantily e morangos. Estavam soberbos. Lá se foi a dieta. Mas foi por uma boa causa: comer comida típica desta magnífica terra.

publicado por novosnavegantes às 16:38
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6º dia de férias

No dia 5 de Abril fomos visitar o Panorama Mesdag a Den Haag. http://www.panorama-mesdag.nl/

 

O Panorama de Mesdag foi pintado por Hendrik Willem Mesdag, em 1881. Neste panorama, o espectador é colocado diante de uma vista do mar e das dunas da vila de Scheveningen, na Holanda. O espaço que vai do espectador à tela de pintura é preenchido com areia, para que este não perceba a fronteira entre o piso da plataforma sobre a qual se encontra e a imagem em si, e tenha uma total imersão na obra.

 

O Panorama de Mesdag é o único panorama ainda existente, preservando a sua tela de pintura e configuração originais.

 

Após esta visita fabulosa, passeámo-nos pelas ruas de Haia, tirámos fotografias em frente ao Palácio de trabalho da rainha e tomámos café na espalnada do café Vienna Konditorei.

 

                                          

 

De tarde passeámo-nos pelo centro de Zoetermeer. (http://nl.wikipedia.org/wiki/Zoetermeer)

 

 

publicado por novosnavegantes às 16:08
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5º dia de férias

No dia 4 de Abril, fomos visitar o mais belo jardim de Primavera do mundo - Keukenhof - Lisse (http://www.keukenhof.nl/).

Este jardim é constituído por canteiros onde podemos encontrar várias variedades de plantas de bolbo e de cores diversificadas - tulipas, jacintos, narcisos... -, estufas de orquídeas maravilhosas,  antúrios soberbos, tulipas extraordinárias, azáleas espectaculares, crisântemos encantadores...

É constituído por espaços diversificados, um deles é o Moinho donde podemos visionar os campos com as suas tiras de cores maravilhosas.

Keukenhof, este ano, está organizado sob o signo do 300º aniversário do botânico sueco Linnaeus, Rei da Flores.

A primeira exposição de flores no Keukenhof data de 1949 e atraiu milhares de visitantes. A iniciativa partiu de um grupo de cultivadores de bolbos e repete-se desde então.

A área, que já foi propriedade rural de um barão - van Lynden - e de 1401 até 1436 foi reserva de caça de uma baronesa - Jacoba von Wittelsbach - é um excelente espaço para relaxar, espraiar a vista e o pensamento.

A baronesa Jacoba von Wittelsbach costumava colher ervas aromáticas, neste espaço, para a cozinha do castelo, daí o nome de Keukenhof, que significa Jardim da Cozinha.

Actualmente, a maior área do parque - 425 hectares - é uma reserva natural.

O parque tem restaurantes, cafés e divertimentos para crianças. É um lugar muito bonito. Aconselho a sua visita aos amantes da natureza e da sua beleza, como comprovam as imagens.

 

                          

  

 

 

 

Ao sairmos do jardim e para darmos continuidade aos bons momentos do parque Keukenhof, fomos jantar ao Trattoria Panini - Italiaanse Lunchroom, Kanaalstraat em Lisse.

A comida é excepcional. Adorei. (www.panini.nl).

publicado por novosnavegantes às 14:28
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4º dia de férias

No dia 3 de Abril, fizémos um programa relaxante, passeio pelas lojas de um centro comercial nos arredores de Zoetermeer.

 

Comi pela primeira vez "poffertjes", polvilhadas com açúcar, acompanhadas de manteiga, chantily e morangos. Soberbas. De comer e chorar por mais.

 

Jantar em família.

publicado por novosnavegantes às 02:01
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